Vício Frenético de Ferrara a Herzog

5 maio 2018

Vício Frenético (Bad Lieutenant, 1992) é dirigido por Abel Ferrara (1951), este filme conta da história de um corrompido Tenente de Polícia, corrupto e usuário de drogas. No submundo da cidade Nova York este homem utiliza de artifícios nada legais para conseguir dinheiro, drogas e sexo. Além de todos os problemas este homem é um apostador compulsivo em jogos de beisebol, que lhe rende sérios problemas com uma quadrilha que fazem apostas. A trama gira em torno do assassinato e estupro brutal de uma freira por jovens delinquentes dentro de uma igreja e fica a cargo do Tenente descobrir quem foram os estupradores.

O uso de drogas pelo personagem vivido por Harkey Keitel é algo recorrente durante o filme

O tenente é vivido por Harvey Keitel que assumiu a difícil tarefa de encarnar um papel tão difícil, a intensidade desse personagem que vive poucos momentos de lucidez é brilhantemente interpretado pelo ator, que muitas vezes se confunde com o próprio personagem. As cenas de uso de drogas e os momentos surreais vivido pelo ator tem tamanha veracidade que traz o espectador para o submundo das cidades grandes e para o cotidiano de um homem perturbado. O peso de encontrar os causadores de tamanha atrocidade ocorrido com a Freira traz o peso do policial que mergulha num rodamoinho de intrigas e um frenesi surreal de um ser escravo de seus próprios vícios.

A visão da Freira na Igreja causa maior confusão na mente do anti-herói, quando a mesma diz que já perdoou seus algozes

Não é mistério que o diretor Abel Ferrara é um usuário de drogas, alias as picadas de heroína, e as carreiras de cocaína capturadas pelas câmeras, advém das próprias experiências do autor e de suas viagens.

O Tenente McDonagh (Nicolas Cage) usa do seu poder para conseguir sexo e drogas de forma ilícita.

O lendário diretor alemão Werner Herzog (1942) autor de clássicos como Nosferato: O vampiro da Noite ( 1979) e Fitzcarraldo (1982) realizou o remake do filme Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, 2009). As sinopses são semelhantes, porém os olhares sobre este personagem tão denso e problemático se diferem bastante nas duas versões. McDonagh é o nome do Tenente degenerado agora vivido por Nicolas Cage, que na versão de Ferrara não tinha um nome.  Harvey Keitel fez do policial um tipo mais desequilibrado do que o Tenente de Nicolas Cage,  mas não menos criminoso, utilizando do poder para ter facilidades e gozar de seus prazeres carnais. Cage vive um policial competente, mas dependente de remédios e drogas devido as suas fortes dores na coluna, sua vida é cercada por drogas, criminosos na qual ele tem contato e uma prostituta (Eva Mendes) que faz o papel de sua namorada. Outro personagem acrescentado é um parceiro de trabalho vivido por Val Kilmer.

Iguanas, lagartos e Aligátores representam os níveis de alucinação vividos pelo personagem

Harvey Keitel (1992) e Nicolas Cage (2009)

Mesmo estando imbuído no submundo do crime e mancomunado  com a contravenção percebemos neste personagem uma espécie de coerência, é a coerência na incoerência. Existe uma busca pessoal por algo que talvez tenha se perdido em sua infância, quando o mesmo revela sua saudades quando retorna a casa de seu pai.

Vício Frenético é um filme único, pois revela um lado sombrio daqueles que detém o poder da lei e que podem estar suscetíveis aos vícios e ser tão contraventores quanto aqueles que perseguem. Tanto na versão de Ferrara como de Herzog, existe uma linha tênue entre ser um oficial ou ser um criminoso, porém na versão de Ferrara vemos um oficial mais perdido, perturbador e insano.  Fazendo uma analogia com um filme semelhante : Dia de Treinamento (Day Training, 2002). Este trata quase dos mesmos problemas: corrupção, abuso de poder e duplo caráter, entretanto não percebemos a intensidade dessa submersão frenética como no nosso Tenente. Alonzo Harris (Denzel Washington) é um policial veterano que se aproveita de seu status e posição para se beneficiar, mas não vemos nele as mesmas mazelas como em Vício Frenético, o tenente é seu herói e seu vilão ao mesmo tempo.

Abel Ferrara e Werner Herzog

Em ambos os filmes de 1992 e 2009 percebemos semelhanças e diferenças entre os personagens, mesmo assim sua essência não foi perdida que é um homem vítima de si mesmo que tem um objetivo mais forte do que ele mesmo, mais forte até que sua própria vida.

 

 

Waldir Bronson

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