Movimento como elemento da Arte

25 fevereiro 2018

A palavra movimento nas artes visuais relacionasse a ideia de ilusão ou muitas vezes ao movimento real como na Arte Cinética, mas se enganam aqueles que ainda creem queumobjeto só se move quando existe uma força sobre ele, a palavra estática nem sempre é  oinverso de movimento, sendo que apensar de estáticos muitas obras de arte tem muito mais movimentos que aqueles que a observam. Uma forma simétrica no centro de uma imagem  nos da a percepção de algo inerte, mas se colocarmos a mesma forma um pouco para a esquerda teremos a sensação que a mesma está se movimentando, como Rudolf Arnheim conclui em seu livro Arte & Percepção Visual no capítulo dedicado ao Movimento. Baseado nestas premissas todas as obras evidenciadas neste ensaio farão um caminho inverso pela história seguindo constantemente o movimento.

Voltaremos em 1856 na França, berço da fotografia, Gustave Le Gray, fotografo e pesquisador, descobre um papel mais sensível a finos detalhes. Num século inventivamente revolucionário em inúmeros aspectos não poderia também neste período ser inventada a máquina que pudesse registrar o tempo ou um momento dele, o Daguerreótipo como foi chamado assim fazia, esta câmera fabulosa trouxe a possibilidade de transportar imagens da lente para o uma chapa com nitrato de prata.  Conforme a evolução tecnológica,  foi possível também registrar frações de segundos, como vemos na foto “A Onda” de 1856. Sem nenhum precedente na fotografia, Gustave Le Gray num curto espaço de tempo conseguiu registrar o instante esvaecer de uma onda.

Num recurso diferente, porem semelhante ao de seu compatriota, Étienne-Jules Marey usufruiu de uma nova tecnologia  para registrar o movimento de um atleta correndo e saltando, a possibilidade de registrar figuras num curto espaço de tempo. Tal recurso foi chamado de Cronofotografia (Do Grego: Crono=tempo, Foto=Luz, Grafia=Registrar ou Escrever), a fotografia a serviço do tempo e de seu registro.

Étienne-Jules Marey

Nunca a humanidade viu tamanha movimentação nas grandes cidades como após a Revolução Industrial, antes disso a vida não tinha o mesmo ritmo com que o progresso nos obrigou a ter, alias a vida no campo era uma vida muito mais contemplativa e com as mudanças e a correria do dia a dia esta percepção, modificou de contemplativa para momentânea e efêmera das coisas. Sob tamanha evolução, da pintura pra depois a fotografia em 1826 e o avanço tecnológico possibilitou a invenção de um aparelho chamado de Cinematógrafo (Câmera filmadora) pelos irmãos Auguste e Louis Lumière em 1895, abrindo as portas para a criação da 7ª arte: o Cinema. A invenção do Cinema não foi a invenção do movimento, alias já se fazia desde os primórdios o registro de animais correndo ou se movendo como nas pinturas rupestre da caverna de Lascaux, porém o Cinema foi a ilusão de movimento mais poderosa que já se foi inventada, uma linguagem poderosa que podia registrar pessoas em movimento, os próprios irmãos Lumiére acreditavam que o deslumbre desta tecnologia logo seria esquecido pelo público e que o Cinema teria vida curta, mas mal sabiam eles que inúmeros recursos seriam acrescentados nesta linguagem e que a cada dia se renova se torna mais poderosa.

Caverna de Lascaux, 15.500 A.C.

Ao limiar do Socialismo nasceu as Vanguardas Russas no início do séc. XX, na qual está o Construtivismo Russo, movimento estético de força e rupturas, inserido num contexto histórico na qual dirigiu sua base e ideologia.  Logo após a Revolução de Outubro de 1917, a luta pela supremacia do governo Russo era entre o Exército Vermelho (Bolchevique) e o Exército ou Guarda Branca, liderado pelos conservadores. A ideia de mudança nas artes aliou-se aos preceitos de ruptura da Revolução Soviética, a linguagem do Cartaz, além de popular era rapidamente absorvida pela sociedade urbana, foi a principal arma destes artistas como Rodchenko e El Lissitzky e porque não chama-los designes gráficos.

Golpeie os brancos com a cunha vermelha – El Lissitizky

El Lissitzky numa composição geométrica, apropriou-se dum triângulo isósceles vermelho incidido num círculo branco, sob a metáfora do vermelho perfurando o branco, nesta aparente composição geométrica se esconde uma forte mensagem ideológica. Espalhados outros triângulos e também retângulos aparecem distribuídos em tamanhos menores, dando uma sensação como se estivessem vagueando ou numa contenda cromática, entre o vermelho (Exército Bolchevique) e o branco (oponente) num cenário monocromático. A Arte Construiivista propunha uma abordagem abstrata e geométrica da Arte, surgiu em 1919 e teve como influência o Suprematismo de Kazimir Malevich(1879-1935) e a teoria do pintor e arquiteto e Vladimir Tatlin (1885-1953).

Fotomontagem de El Lissitzky de 1929

A colagem é uma técnica característica do início do séc. XX, conhecida também como fotomontagem e a afrancesada assemblage. Muitos artistas plásticos e gráficos apropriaram-se deste recurso, como: Rodchenko e El Lissitzky nos cartazes soviéticos, Picasso e Braque no cubismo e por fim Schwitters no Dadaísmo. Entre os seguidores do movimento de Tristan Tzara, Raoul Hausmann ficou muito conhecido por suas colagens de caráter crítico-cômico. A arte abstrata geométrica tem seus elementos visuais divididos em cores, massas, formas, todas sob leis plásticas. Estas convenções regem o fundamento de uma obra como: composição, fundo e etc. A alusão ao movimento fica clara no aspecto das formas na colagem “ABCD Retrato do artista” de 1923, a boca entreaberta nos convida a uma ação mesmo que numa imagem sem movimento real. Ao colocarmos uma composição abstrata formal de Mondrian ao lado da de Hausmann conseguiremos fazer esse paralelo de uma pintura rigidamente sem movimento aparente e de uma colagem cheia de elementos. A faixa retangular escura que cruza o rosto parece um objeto em incisão direta, a palavra incompleta “ST Z” na vertical trás essa aparente desordem, porém cheia de energia plástica.

RaoulHausmann “ABCD” 1923-1942

O filme Metrópolis de 1927 do austríaco Fritz Lang revolucionou por si só o cinema numa visão sombria e crítica do mundo moderno. Em uma cidade do séc. XXI onde os ricos usufruem das primazias da superfície da cidade: carros,  aviões, edifícios futurísticos e tal, o submundo abaixo dos arranha céus, trabalhadores se fazem como máquinas para manter a tal “metrópoles” aparentemente justa em total funcionamento.   A visão cinematográfica do movimento está ligada ao andamento do filme e a seus efeitos especiais. As várias facetas deste conceito devem ser analisadas separadamente em suas diferentes manifestações, como por exemplo, analisar o papel da edição, ao fazer cortes como auxiliador da fruição numa produção cinematográfica, sendo que em cenas longas parecem mais leves e nas com mais cortes dão a sensação de interrupção. Se tratando de um longa-metragem do gênero de Ficção Científica num contexto de uma megalópole ultramoderna, não haveria como não pensar em movimento, velocidade e overdose de tecnologia.  Nestes aspectos Metrópolis, foi e ainda é uma produção ligada aos problemas sociais das grandes cidades numa reflexão tenebrosa, também como termômetro dos limites para as civilizações futuras do séc. XXI.

Iberê Camargo é expressionista em sua pincelada, entretanto se confunde com outros estilos predeterminados pelos estudiosos de “arte”, não a como denominá-lo. Num frenesí de cores e massas Iberê mergulha em suas origens mais profundas e primitivas, busca o desconhecido de forma selvagem e implacável. Mesmo que sua arte possa se confundir com algum expressionista abstrato estadunidense, não podemos deixar se enganar a suas raízes, pois suas origens vão muito além de uma busca pictórica, é uma simbiose entre ser criador e o suporte, é a gestualidade numa ação de cunho mais ligado ao movimento corporal que propriamente a meros detalhes frívolos de estudiosos da arte. Iberê é Iberê.

“Núcleo em Expansão” de Iberê Camargo

Op Art ou Optical Art é um arte puramente sugestiva ao que se diz respeito aos efeitos ilusórios que as formas e as cores podem causar a nossa percepção visual. O seu criador o pintor húngaro Victor Vasarely realizou diversas experiências com imagens geométricas dando ilusão de tridimensionalidade, diferente dos pintores formais abstratos Vasarely e todos aqueles que seguiram a Op Art, criaram uma arte que trabalha com as leis da física e das cores, criando movimentos e vórtices que giram e se fundem como se houvesse um encanto sobre a obra de arte.

Victor Vasarely e suas obras óticas

Ao acompanharmos diversas obras sobre o conceito do Movimento, pudemos entender esse componente tão presente nas artes em suas diversas manifestações, no entanto vimos que o significado desta palavra no vocabulário visual varia de acordo com o contexto onde a mesma está inserida e seu conceito se modula de acordo com o tempo e com a linguagem, como pudemos observar.

 

 

 

Waldir Bronson

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