Função, Beleza e Desempenho

11 dezembro 2017

Em nossa sociedade em geral, apenas se prioriza ou tende a priorizar, atualmente a função do objeto e sua capacidade de desempenho. Uma ferramenta é apenas usada para a sua finalidade e se ela nãopode desempenhar sua função, é descartada, e isso se reflete na maioria dos objetos e até mesmo nas paletas de cores que é usada para a criação dos mesmos. Mas se formos analisar um retrospecto histórico, vemos que essa tendência não foi sempre assim.

Quando o homem se encontrava criando as primeiras ferramentas, existia a necessidade de querer comunicar a importância daquele objeto a todos, de maneira que visualmente seria como se dissesse essas palavras “olhe essa lança, feita por mim, para ser usada por mim ou quem é próximo a mim, ela garante meu alimento e minha defesa”. Portanto para fazer isso, era comum encontrar gravações, entalhes, enfeites, pelos de animais, contas e etc. Assim o tempo gasto para se fazer o objeto era maior, já que não bastava apenas criar algo e sim deixa-lo agradável, belo e admirável, indo além da função e do desempenho.

Se passarmos para a antiguidade, começam a ver o papel desempenhado do objeto ganha mais ou menos ornamentos refletindo a posição social do portador. Por exemplo um arado ou uma foice não vai ganhar tanta atenção de um ferreiro ao fabrica-los quanto uma espada ou armadura. A espada tem a finalidade de matar outra pessoa, portanto ela se torna um símbolo de status social em si, então é possível observar mais cuidado em sua fabricação, nos materiais , entalhes em bronze, prata ou ouro nos punhos, gravações na lamina e se o ferreiro ficasse orgulhoso de seu trabalho criava seu próprio símbolo, sua marca conseguindo um renome e ser lembrado e procurado por outras pessoas.

Roma foi um grande exemplo de beleza, função e desempenho. Os generais usavam uma couraça chamada de “lorica musculata” que basicamente era uma proteção do torso extremamente ornamentada feita em couro, bronze e com detalhes em prata ou ouro, refletindo a importância de quem usava, já a armadura de um soldado comum seria a “lorica segmentata” que consiste me chapas de aço presa entre si, detalhe que as chapas de aço tinham de ser conforme o corpo do soldado (portanto uma armadura em um soldado não teria o mesmo caimento para o outro), era comum o uso de uma vestimenta chamada “subermalis” (que era uma camada grossa de tecido, linho ou lã) usada em baixo da armadura para absorver os impactos, esse conjunto todo fazia o desempenho da armadura de um soldado comum ser melhor do que a proteção usada pelos generais.

Escultura do Imperador Augusto, exposta a luz ultravioleta que revelou sua pigmentação original.

Lorica Musculata

Armadura Segmentada(lorica segmentata)

Com o passar do tempo, os gládios deram origem as spathas (que eram a versão mais longas e estreitas do gládio) e os cabos foram se tornando cada vez mais ornamentados, refletindo a posição social do dono (mais simples para os demais guerreiros, mais ornamentados para os comandantes, reis ou lideres). Isso se reflete em todos os povos ou culturas que tiveram contato direto ou indireto com Roma.

Espadas Vikings

Roma também era obcecados por cores, e essa tendência permaneceu por toda a história até o inicio da era moderna, era comum as pessoas usando túnicas ou outras vestimentas em cores vivas como azul, verde e vermelho, os mais nobres usavam a cor púrpura, carmesim, branco e assim por diante. Então se viajarmos no tempo, não iríamos ver as pessoas usando roupas cinzas, marrons e desbotadas como sugere a maioria dos filmes de fantasias ou documentários sobre a Idade Média.

“Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” de 1991

Padrões estéticos vão se tornando cada vez mais sofisticados, se tornando mais complexos e elaborados, ao ponto que os nobres iriam requerer a presença de um criado para ajudar a se vestir (não que o nobre não fosse capaz de se vestir sozinho, mas era um desnecessário, já que existe uma pessoa que tem essa função para fazer por você) e criados vestiam roupas condizentes aos status social de seu senhor, portanto um nobre não gostaria de ser visto ao lado de um criado mal vestido. Nesse ponto vemos que a importância da beleza superava a necessidade do desempenho.

Somente após a revolução industrial, a beleza e a complexidade estética começa a ser desassociado da função e priorizando o desempenho. Se observarmos as armas de fogo nesse período, os revolveres que eram feito individualmente ganhavam mais detalhes, gravações, relevos e formatos distintos e elaborados, enquanto aqueles que eram produzidos em larga escala nas industrias, eram simples e não tinham tantos detalhes (embora fosse comum os donos pedirem para personalizar suas armas e objetos após a compra colocando um cabo com material diferenciado, ou outros tipos de detalhes e adornos podendo ser feitos em prata ou ouro) .

Armas de fogo na época pré revolução industrial .

Revolver “Colt Navy” produzido em larga escala.

Revolver “Colt Navy” customizada a pedido do dono

Quando chegamos ao final do sec XVIII e assim chegando ao inicio do século XIX, com o inicio da era moderna, vemos somente duas cores predominantes nas roupas (preto e branco), claro que existiam variações, mas não eram comuns nas camadas mais abastadas da sociedade, e as roupas vão se tornando cada vez mais simples, Fraques se tornam ternos, capas não são mais usadas em eventos (somente pela sua função entre os homens no campo para montaria) ; chapéus se tornam cada vez mais funcionais e diminuem seu tamanho e variações no seu formato, até chegarmos a nossas boinas e bonés.  Ou seja, as roupas vão se tornando cada vez mais e mais simples e as variações em cores vivas não são mais tão utilizadas entre as pessoas com mais status social e poder aquisitivo.

Essa preferência pela função sobre a beleza e o desempenho se reflete em todos os outros aspectos da sociedade,  as linhas nos designs de carros se tornam cada vez mais angulares, e aerodinâmicos abandonando as curvas e formatos arredondados, a paleta de cor tem a predominância de brancos, pratas e pretos. Raramente vemos um carro atualmente com outra cor.

Rolls Royce Phanton ,1928

Rolls Royce Phanton ,2017

Nossas estantes, armários, camas ou prateleiras não são mais meticulosamente entalhados ou trabalhados, e a beleza está se afastando cada vez mais dos olhares de todos, enquanto alguns podem pagar por detalhes, fazem isso de maneira discreta e assumindo enormes custos.

Casa Vitoriana

Casa Contemporânea

Se formos reparar na música, agora é comum as músicas reciclarem os próprios ritmos, ou batidas de outros músicos que o influenciaram, onde para um ouvinte desinteressado, parece que simplesmente as pessoas estão escutando a mesma musica de novo, de novo e de novo.

Acredito que estamos entrando numa era de estagnação e preguiça, não vemos mais sentido em querer gastar tempo e empenho nossos para criar algo mais belo, único e agradável. As musicas são cada vez mais agressivas, precisando recorrer a gritos e falas provocativas ou ofensivas para se diferenciarem entre si, nossas roupas estão se tornando cada vez mais e mais parecidas em seu design, variando somente em algumas estampas e cores, e se você não tem um excelente poder aquisitivo, provavelmente vai comprar um carro com linhas retas e cores simples, não porque você gosta desse carro em si, mas porque existe uma necessidade imposta na sociedade para revender o carro para adquirir outro semelhante, porém com algumas alterações em seu desempenho (vemos várias gerações do mesmo carro com poucas mudanças em seu design mas mudanças radicais em seu motor e desempenho).

Estamos entrando na tão temida estagnação das atividades humanas que a filósofa Hannah Arendt temia, e sua principal consequência é a priorização do labor (que é a atividade humana que garante a sobrevivência, tanto do individuo como da espécie) que vai refletir na banalidade do mal, onde crimes e desavenças são olhados com descaso, e graças a isso, as pessoas acabam tendo de escolher entre várias pessoas com roupas e palavras parecidas tornando difícil distinguir um do outro, e assim o povo vota em um candidato que não representa outro interesse além do seu, e a corrupção e maldade dos políticos que deveria ser visto como assombro e uma verdadeira tragédia é considerado comum. E as pessoas estão mais interessadas em ouvir a música em seus fones de ouvido, escutando a mesma batida várias e varias vezes sem nem mais se preocupar se são parecidas (ou até mesma plagiadas) uma com as outras, onde não mais reflete beleza alguma, apenas reproduz a mesma percepção da realidade de novo e de novo.

Como podemos romper isso ?

Sugiro buscar a beleza, dedicar tempo e trabalho a ela, tenha algo porque você quer e goste, não porque seja barato e funcional. Quando a sociedade voltar a buscar a beleza e ela estiver disponível a todos, as mudanças vão começar a acontecer.

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Nelson C. Federicci Jr.

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