Entrevista com Xavier

25 junho 2018

Xavi, Xavier ou Sebastião Xavier de Lima é um Ilustrador, caricaturista e artista plástico nascido em Rubiácea, interior paulista, em 1959, vivendo até os 17 anos em Guaraçaí (SP) pra se formar mesmo em São Paulo (SP), filho de pernambucano descendente de índio-negro (cafuzo) com branca e paulista descendente de branco de Minas Gerais com negra de São Paulo, então, quase puro brasileiro. Desde muito cedo com o lápis no papel explorando o desenho e com pincéis a pintura em telas, passando pela ESPM, pela Faculdade de Belas Artes, pela Escola Panamericana de Arte, tem aprendido muito na raça e na praça. Nesses anos todos trabalhou em comunicação visual atendendo grandes e pequenas empresas, fez diversas ilustrações, caricaturou muita gente anônima tanto por encomenda como em eventos. Em salões de humor as participações ganharam algumas boas referências: Menção Honrosa em desenho de humor no Mapa Cultural Paulista de 2003/2004; Menção Honrosa em no 34º Salão Internacional de Humor de Piracicaba (2007); Primeiro prêmio no 10º Salão Nacional de Humor de Cerquilho em 2011 – SP, 1º Lugar no 24º Salão Internacional de Humor de Volta Redonda – RJ/ 2011; Primeiro prêmio no 1º Salão de Humor de Guaíra – SP , Prêmio no Mapa Cultural Paulista de 2013/2014; Menção Honrosa no 12º Salão de Humor de Cerquilho em 2014 – SP; 2º Lugar no 27º Salão Internacional de Humor de Volta Redonda – RJ/ 2014; 1º Prêmio no 13º Salão de Humor de Cerquilho de 2015 e 3º lugar no 2º Salão de Humor de Avaré em 2015.

Entrevista:

Xavier você é um caricaturista nato, desde garoto você já gostava deste tipo de arte?

Waldir, a caricatura apareceu na minha vida sem planos, no colégio ficava rabiscando todos meus amigos e professores na lousa durante os intervalos, só pra todo mundo rir um pouco na volta pra sala, mas pra ser sincero não sabia ainda se gostava ou se seria um dia o meu ganha-pão. Desenhar sim gostei desde muita tenra idade.

Caricatura de “Adoniran Barbosa”, premiado no 1º Salão de Humor de Guaíra – SP

Fazer Charges e Caricaturas no Brasil não é fácil, como qualquer área ligada à cultura, porém se tratando de política existe um vasto material a se explorar nesta área do desenho. Como você vê a importância da charge e da caricatura na atual conjuntura?

Cara, tenho me decepcionado quanto aos efeitos da charge, digo reações reais e práticas de mudanças propostas por uma charge, talvez pela falta de interesse por parte de uma mídia engajada. Quando comecei a fazer charge, essa tinha uma força muito grande nas discussões políticas e comportamentais no mundo todo. Hoje parece que fora do Brasil ainda tem força, mas acredito que aqui, talvez pela zona que virou nossa política, nossa falta de vergonha dela, melhor dizendo, não a charge, mas a intenção dela perdeu o sentido esvaziando-se. Conseguem fazer da cultura no Brasil algo supérfluo. Então como recebem hoje essas ideias e críticas de uma charge, parece querer diminuir a importância e consequentemente seu significado motivacional a uma discussão ou mesmo reflexão política ou até mesmo como uma forma de expressão artística. Ainda acredito no poder da charge, mas me aflige a posição das pessoas diante dela, o que tenho percebido esmaecer o interesse como fumaça com a falta de humor. Só temos a agradecer que ainda persistam os caras que ainda fazem charges no Brasil e tendo onde publicar, e também muito aos salões de humor que tentam com tremendo esforço manter a disponibilidade da charge que pouco vejo hoje na imprensa. Talvez por nunca me sentir um chargista tenho desistido disso.

Pintura Abstrata Formal de Sebastião Lima

“Alagados” óleo sobre tela

Além de caricaturista você também é artista plástico. Fale um pouco do seu trabalho.

Tenho de confessar que acho que falhei no esforço de colocar-me por inteiro na pintura e escultura. Quero até hoje acreditar mesmo, que essa falha tenha sido provocada pela falta de alguma estrutura que a gente espera utopicamente de um Estado que trabalhasse em prol disso, fornecendo condições de mercado cultural mais amplo, e não por mim. Por eu nunca conseguir vender bem meu trabalho nessa área, tive de optar pela caricatura e ilustração que ofereceram sempre uma condição melhor de sobrevivência. Porém, continuarei na busca de maior sentido na minha pintura imaginando que ela possa tomar um lugar de destaque na sua importância e reconhecida, procurando aperfeiçoar-me na técnica e qualidade pictórica pra não cair no vazio decorativo. Minha pintura hoje tomou uma direção mais abstrativa, com mais elementos coloridos e simbólicos. Poucas figuras aparecem de forma a não dizer a que vieram.

“A subida do anjo caído” aguada de pó de café sobre papel

Existem duas pessoas distintas Xavier e Sebastião Lima, qual são suas diferenças?

É uma história meio longa e complicada de complexos e não aceitação do próprio nome. O sobrenome Xavier até com meu pai, sobrepujou o nome. Sempre mais forte e distinto, que ainda não sei por que, tomou a frente. Aproveitando-me disso e com a rejeição pelo Sebastião, tentei sintetizar minha assinatura em SeXavLi, copiando meu irmão mais velho, depois me apropriando de SeXavier por um bom tempo ainda influenciado pelo surrealismo, por outro tempo ficou mesmo apenas o Xavier. Com o advento da caricatura pude comprimir pra Xavi criando minha marca Xavicaturas. Buscando novas linguagens na pintura, minha oportunidade de assumir meu primeiro nome conseguindo através disso separar uma coisa da outra como se fosse mesmo outra coisa…rs, poderia enfim fingir que pintando seria eu verdadeiramente Sebastiao Lima, sem o til mesmo, e caricaturando ou ilustrando ser o inoxidável Xavi. Mas o que vale mesmo é que me chamam de Xavier e pronto.

Caricatura “Marta” premiado no 10º Salão Nacional de Humor de Cerquilho

Quais foram suas influências tanto no Âmbito do Desenho de humor com nas Artes Plásticas?

Influenciaram-me muito os desenhos dos mestres Mordillo(1932), Moebius(1938-2012), José Ortiz(1932-2013), Sergio Aragonês(1932), porém, ainda não tenho certeza de não me influenciar por outros ilustradores hoje. Nas artes plásticas as influências foram mais incisivas, Salvador Dalí(1904-89), Max Ernst(1891-1976), Joan Miró(1893-1983), Gustav Klint (1862-1918) nessa nova empreitada que comecei depois de ver os trabalhos do meu amigo Kenich Kaneko(1935), um japonês brasileiro que me fez ver também Jean Dubuffet(1901-1985) entre outros grandes pintores.

Sabemos que você é um artista premiado em diversos Salões de Humor e tem trabalhos até no Exterior. Quais momentos você destacaria como mais importantes na sua carreira?

Perguntinha difícil essa porque tive muitos, aliás, todos os momentos foram extremamente importantes na minha carreira e destacar faria injustiça. Prêmio é uma coisa muito boa, pois mostra reconhecimento e coloca o trabalho em destaque, claramente favorecendo a carreira. Apenas que sinto falta dos salões de artes plásticas facilitadores, mas que até entendo o distanciamento que deram pra realçar valores financeiros como qualidade de arte, mas que isso é uma discussão difícil de se chegar num denominador sem frustrar ou recalcar alguma coisa.

“Navegantes Ilusórios” da série Vestígios

Tem algum projeto em mente ou algo que gostaria de fazer, poderia nos contar?

Projetos, tenho bastante, mas alguns engavetados esperando alguma oportunidade, outros já fechados pelo tempo, desistidos, e uns que ainda nem sei se valem a pena.

Caricatura sobre a obra “Monalisa” de Leonardo Da Vinci

Sempre existiu um certo “preconceito” apesar de hoje ser menor quanto aos Quadrinhos e as Caricaturas como se fossem uma “Arte Menor” comparado as Artes Plásticas, no entanto percebe-se uma união muito grande entre os desenhistas de quadrinhos e caricatura, até maior que os artistas plásticos. Quais cartunistas ou desenhistas você conhece que acredita que mereceria um maior destaque?

Outra injustiça estaria cometendo destacando alguns em detrimento dos muitos amigos e colegas de profissão, sendo que acho que todos merecem destaque, que deveriam ter a mesma disposição de buscar e as mesmas chances de oportunidade. Mas, Waldir, ainda tentam fortemente distinguir, mesmo vendo que muitos conseguiram trazer a caricatura pictórica e escultural, o quadrinho plástico, a pintura grafitada em muros, o grafite pintado nas galerias, enfim a arte só fica menor quando o povo não tem acesso mental a cultura. Já sobre a união dos caras de quadrinho com os de caricatura deve ter se dado justamente por esse preconceito, mas em tudo tem suas razões pra sobrevivência , pois não tem como ignorar nossa contemporaneidade com esses arranjos tecnológicos e midiáticos.

Para Finalizar deixe um recado para aqueles que acompanham seu trabalho e para aqueles que estão começando no mundo das Artes.

A gente critica toda essa parafernália tecnológica e de mídia, mas devemos entender que nos fizemos precisar dela. Temos de dar graças às redes sociais que foram importantes na cadência de novas ideias e meios de interagir. Hoje somos unidos pela internet, mesmo achando que deveríamos ser unidos na vida, mas que trouxe melhorias na prática. Sinto-me grato por isso e por todos que curtem meu trabalho, e os que podem e querem adquirir sabendo por que o querem. E que continuem acreditando na arte como forma de união mental pra gente chegar num futuro que não seja o apregoado por essas condições insanas que a ganância provoca no mundo de hoje. Espero conseguir dar minha contribuição. Sucesso pra você e a todos aqueles de boa vontade.

Pintura Abstrata Formal de Sebastião Lima

 

 

Waldir Bronson

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