Entrevista com Rubens Matuck

10 outubro 2015

Entrevista com Rubens Matuck(1952), professor, artista visual, ilustrador, quadrinista, com mais de 60 livros pulicados e ilustrados. Rubens Matuck vem de uma família de artistas, seus outros dois irmãos também são artistas: Carlos e Artur. Com exposições e premiações no Brasil e no Exterior Rubens Matuck  fala um pouco de sua arte.

A gente vive num país, onde muita gente reclama sobre a parte econômica, sobre tudo praticamente.  Nós temos bons artistas, bons músicos, cineastas também. Como você vê a parte do artista brasileiro, você acha que tem espaço ou você acha que não tem? Você que é um homem que já viajou diversos países da Europa e do Oriente, já foi para diversos lugares, como você vê o espaço no Brasil para o Artista Plástico?

Matuck: O artista não tem espaço em lugar nenhum. Tem se o cara é pego pelo mercado e tal, mas na verdade este espaço de manifestação é um espaço restrito, o mercado restringe. É muito difícil ter um artista que fala da alma dele, com alma, não tem poderes,  isso é quase impossível.

Você acha que a Arte ou o Mercado controla o artista?

Matuck: Acho que o Mercado se fosse feito com mais ética seria muito mais legal, não inventar os artistas. Fazer uma coisa real, deixar o artista se expressar culturalmente, acho que falta isso no mercado.

A Madeira  este material orgânico, este material maravilhoso que acompanha o ser humano desde a pré-história  até hoje e que nunca vai sumir, além de ser o material suporte de suas pinturas, como é a Escultura usando este material e os outros?

Matuck: A parte de madeira e de escultura que desenvolvi mais foram as sementes imaginárias, que é um artista do planeta chamada Piollo Mathematicalle, do meu trabalho imaginário…

Do seu trabalho do Museu de Arte Interplanetária?

Matuck: Eu tenho um trabalho imaginário de todas as correntes de arte que tenho dentro de mim, eu ponho um nome, uma maneira de trabalhar.

Uma maneira de mostrar as várias faces de um artista?

Matuck: Deve ser, eu não gosto muito desta palavra, não é face, é pé, é mão, não é só face. (Risos)

Sobre a arte internacional, a Arte Moderna, qual o artista que você mais admira, sei que você gosta de Joseph Cornell. Tem um artista em destaque?

Matuck: Tem milhões de artistas. Gosto muito do Chang Dai-Chien pintor chinês moderno amigo do Picasso, gosto do Picasso. Não acho que a Arte Moderna exista, eu acho uma coisa meio ilusória, eu acho que a Arte é uma espécie de rio gigante, eu não acredito que “Arte Moderna” exista, alias esta palavra é uma idiotice, só porque tem técnica, não entendo muito bem esta palavra. Não gosto da Vanguarda também, me lembra o exército.

Você como já disse teve um laço muito grande Aldemir Martins, um artista que já ganhou Bienal, um excelente desenhista, um representante mundial da Arte Brasileira. Como foi este laço entre você e Aldemir Martins?

Matuck: Eu acho que o que ele mais me ensinou foi conhecer o Brasil, me ensinou muita Arte, todos os aspectos: desenho, comportamento…  E principalmente me mostrou que a conduta de um artista, a conduta ética de apoiar todo mundo, este foi maior exemplo que ele me deu, esta generosidade dele.

E qual foi o maior conselho que ele lhe deu, me parece sobre quando você foi ter aulas de pinturas, ele pediu para conhecer todas as técnicas da pintura brasileira, de viajar o mundo?

Matuck: Não, ele me pediu para viajar pelo Brasil, foi ai que aprendi que o Brasil é muito mais complexo do que parece. Depois de trinta anos viajando eu vi que o Brasil tem um riqueza de Arte muito grande e estas riquezas eram percorridas por eles antes: o Mestre Zézinho, Mestre Vitalino, Arte Tucano, ele gostava muito de Arte Indígena, me ensinou muito. Esta foi uma coisa que enriqueceu muito minha visão de trabalho.

A Arte Indígena é vista mais como um Artesanato, o que você acha da Arte Indígena?

Matuck: As palavras quando vem dos europeus, na realidade são palavras assassinas. A palavra Artesanato na verdade é um debate medieval, quem usava a mão, os pedreiros, os pintores e quem eram os artistas santos da igreja que era a Renascença. Este debate permaneceu e divide como se houvesse uma hierarquia entre os artistas.

Como se fosse uma Arte Pagã?

Matuck: Talvez tenha um fundo nisso, é verdade.

Qual mensagem que você poderia deixar para quem está começando neste ramo, nas Artes Plásticas, no Desenho, nas Histórias em Quadrinhos….

Matuck: Mensagem é que você tem que ouvir a voz interior, ser livre e não ser preguiçoso, estudar bastante… Não é fácil, é um caminho bem delicado.

Rubens, apesar de você ser um Artista Plástico, a gente percebe a sua ligação com a Educação, com a parte pedagógica também, tem diversos livros seus que são distribuídos para as escolas, professoras que fazem projetos sobre seus trabalhos, sobre seus livros premiados, prêmio Jabuti e etc. Eu quero que você dê a sua opinião sobretudo o Ensino de Arte, como você aplica o Ensino de Arte?

Matuck: Meu trabalho de Ensino de Arte, meu trabalho particular é tentar mostrar para a pessoa que ela tem já dentro si um caminho a percorrer. É um pouco diferente da universidade, dessa ideia que você tem um caminho europeu a percorrer. Acho que a humanidade é mais que a Europa, mais rica. Você tem pintores chineses, africanos, alemães, russos, checos, japoneses, iranianos, iraquianos, é só você conhecer, não é?

Na Arte Contemporânea, a gente vê artistas chamados de Multimídias, fazendo uma coisa, fazendo outra, fazendo tudo. A gente consegue analisar um artista Rubens Matuck, um artista clássico, um artista como os grandes mestres da pintura, só que ao mesmo tempo você trabalha com diversas mídias com diversas técnicas. O que você tem a dizer aos artistas que passeiam nas diversas mídias, e artistas como você que também trabalha com diversas técnicas, mas de outra forma.

Matuck: Eu acho que isso é uma coisa do mercado, hoje para vender você tem que fazer fotografia, como sempre foi, ou vídeo, fotografia ou filme. Não acho que estas mídias mudam o trabalho.

Você acredita que estes artistas não perdem o valor deles?

Matuck: De jeito nenhum

É fácil perceber no seu discurso, nas suas obras, nos seus livros, esta parte ecológica ambiental muito forte. Uma consciência que hoje em dia não se vê tanto, a gente vê um discurso demagogo, mas não vê na prática mesmo, isto para você é uma coisa muito intrínseca da sua  arte e da sua personalidade, fale um pouco sobre isso…

Matuck: Isso foi quando nasceu minha filha Alice eu comecei a fazer estes livros de natureza mais ou menos lá por 1984 e me ajudou muito os livros, já que eu recebia melhor que pintura, porque pintura eu recebo muito pouco, de vez enquanto, eu não sou um tipo artista “superstar”, sou um artista muito complicado,  atrapalhado, não sei vender, não sei fazer marketing, não sei fazer nada. Eu me sinto muito mal no mercado de arte. Então os livros me ensinaram muito a sobreviver e a criar minhas duas filhas, agora esta minha fase atual eu parei de fazer estes livros e tornou uma parte do meu trabalho são os “cadernos de viagens”. Lá eu saio pelo Brasil anotando, uma coisa meio do meu coração, não tem nada a ver com a ordem da arte grega, não tem nada a ver com nada. Aonde eu conheci a Arte de Altíssimo Nível, tanto Arte Pré-Histórica, quanto  Arte Indígena, quanto Arte Portuguesa também, brasileira, africana, tudo misturada numa coisa só que é o Brasil.

Quando pensamos nos “Cadernos de Viagens” lembramos de Jean-Baptiste Debret, artistas que usam como forma de registro e documento histórico, como você vê os “Cadernos de Viagens”?

Matuck: Eu vejo isto como uma ignorância do nosso intelectual brasileiro, poderiam estudar o Frei Veloso, o Barbosa Rodrigues, o Alexandre Rodrigues Ferreira que era um cara que nasceu na Bahia foi para Portugal e fez um dos Cadernos de Viagens mais lindos com dois artistas portugueses. Você vê que a ignorância nossa é que temos que eleger um padrão cultural: Alemanha, França, isto é uma insegurança horrível no Brasil. Então, este brasileiro que fez o Caderno permanece desconhecido e o Barbosa Rodrigues, também e ninguém conhece.

Você disse sua ligação entre a Arte Oriental e a Ocidental, de sua visão entre estas artes.

Matuck: Tudo saiu da África, da pintura pré-histórica africana, parece que veio para o Brasil muito cedo, tão cedo quanto foi para a Europa. Mas dá para perceber a diferença da pintura Brasileira, uma pintura brasileira é velha. O nosso sistema de ensino, ele só raciocina como europeu, ele não raciocina como se fosse uma América do Sul, uma área grande cheia de arte muito complexa, com relações com a Sibéria, com os Japoneses e principalmente com os Africanos.

E a questão da Arte Oriental: Chinesa, suas raízes Árabes, como você vê isto em sua arte? Esta influencia é muito forte em sua obra e em outros artistas.

Matuck: A influência do oriente é tão grande que toda criança do ocidente usa Nanquim, só que o Ocidente não percebe, é uma pena…Papel, a Tipografia.

Você comentou sobre a influência da Arte Africana aqui na América e de outros Continentes, como você vê a importância desta arte, vista por muitos como Primitiva, dê sua opinião sobre ela.

Matuck: Toda arte que se nutre de uma arte mais antiga, seja da Grécia, seja do Egito, que para mim é a África, seja dos Meroítas em Meroé ali no Sudão, seja da África do Sul, das pinturas da Rodésia, todo mundo que se nutri disso, a Europa, a China, reconhecem hoje que é africano, que é a pintura mais velha da Terra é a Africana. Esta influência é tão funda que tem a ver com a Tinta, com a Pedra, com o Painel, já tinha tudo isso na África, mas muito antes do Ocidente e do Oriente também, que é uma falsa coisa, que na verdade a “Rota da Seda” acabou com o Oriente e Ocidente, sempre foi uma ligação muito forte.

Gostaria que você falasse um pouco, sobre sua relação com o Escultor Van Acker e sua História em Quadrinhos: As Aventuras de Sir Charles Mogadon e do Conde Euphrates de Açafrão.

Matuck: Eu fazia a História em Quadrinhos como um divertimento noturno muito interessante, naquele tempo eu conseguia desenhar a noite, hoje eu não consigo, muito difícil para mim, fiquei muito mais cansado, faço muito mais coisas durante o dia. Esta história pra mim não tinha tanta importância, que veio a ter depois. O Van Acker olhou e falou: este é o seu trabalho verdadeiro. Isto me marcou me ajudou muito, foi muito bom.

Como você conheceu o artista plástico Octávio Araújo?

Matuck: Conheci o Octávio através do Aldemir, e o Alfredo Mesquita um dos criadores da Escola de Arte Dramática da USP. Eu sempre gostei muito do Octávio, uma pessoa que veio do interior de São Paulo, de Terra Roxa, o pai dele era farmacêutico, lutou muito. Conheceu a Guia russa, quando ele foi para China e para Rússia, conheceu uma Guia russa, depois ele se casou com ela, é tradutora e tiveram filhos. Ele trabalhou com o Cândido Portinari, nos Murais. Na Rua Toneleros, onde foi o caso do Lacerda, acidente do Carlos Lacerda, ele morava nesta rua. Trabalhou nos Murais do Ministério da Educação no Rio de Janeiro.

A gente já falou do Octávio Araujo, gostaria que você falasse, você já teve aulas com grandes mestres:  Aldemir Martins, Octávio Araujo, Samsom Flexor, Renina Katz,  Marcelo Grassmann, Evandro Carlos Jardim. O que que eles significam para você, dê um comentário sobre eles.

Matuck: Eu tinha muita curiosidade quando comecei, eu fui chamado pelo Marcelo Grassmann, ele viu os desenhos meus no jornal (O Estado de São Paulo) então depois entrei na escola a Renina se aproximou de mim, o Flávio Motta. Depois o Aldemir que foi a pessoa mais próxima de mim, começou em 1967 até quando ele morreu em 2006, fazem quase 10 anos, foram 40 anos de amizades ininterruptas que aprendi muito. Todos me ensinaram muito: Jorge Mori, Roberto Grassmann que imprimia minhas gravuras. Eu sou muito feliz nessa parte.

Obrigado Rubens Matuck, por nos ceder esta entrevista.

Rubens Matuck em seu ateliê

Chang Dai-Chien umas das influências de Rubens Matuck

Joseph Cornell artista norte-americano que trabalha com caixas, mais uma influência de Matuck

Rubens Matuck ao lado de sua escultura de 7 metros no Hotel Almenat em Embu

Auto-retrato óleo e folha de ouro sobre madeira, 2002

Detalhe do história em quadrinhos “As Aventuras de Sir Charles Mogadon & do Conde Euphrates de Açafrão”

Detalhe da história em quadrinhos “As Aventuras de Sir Charles Mogadon & do Conde Euphrates de Açafrão”

Gravura Maneira-Negra de Rubens Matuck, 1986

Charles Mogadon, óleo e folha de ouro, aplicado sobre madeira

A Natureza e as Árvores são inerentes a obra de Rubens Matuck que consequentemente transformam-se em seus Cadernos de Viagens.

Rubens Matuck realizando uma aquarela em seu “Caderno de Viagens” parte importante de sua obra

Rubens Matuck e Milton Nascimento, Acre, 1989

Da Esq. para Dir: Alice Nakawa, Aldemir Martins, Octávio de Araújo e Rosely Nakawa

Marcelo Grassmann

Waldir Bronson

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