Entrevista com Fernandes

31 Março 2018

Luiz Carlos Fernandes é um cartunista, ilustrador e escultor que nasceu na cidade de Avaré interior de São Paulo, em 6 de Outubro de 1959. Atualmente mora em Santo André e trabalha no jornal Diário do Grande ABC. Publicou pela primeira vez em 1979 no jornal “O Estábulo” em Avaré.  Começou a participar a participar de salões de humor em 2001. Ilustrou vários livros infantis cerca de 200, entre eles: A Turma do Gerson(Gerson de Abreu da Editora Atual) e a Coleção premiada Castelo Ra-tim-bum publicado pela Editora Cia das Letrinhas. Em 2008 foi jurado do International  Nasreddin Hodja Cartoon Contest em Istambul na Turquia a nos anos de 2012 e 2014 no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.  Fernandes já expôs seu trabalho em todo país, e coleciona dezenas de premiações em Salões de Arte no Brasil e no Exterior, como: Itália, Romênia e Portugal.

Prêmio Salão Univates

Entrevista com Fernandes:

Fernandes conte nos como foi seu início no mundo da caricatura e dos desenhos.
 
Como a maioria das crianças que gostam de desenhar, eu também fui uma dessas que brincavam de rabiscar. E não parei até hoje. Comecei a trabalhar muito cedo, no início dos anos 1970, por ironia do destino, entregava jornais em Avaré(hoje trabalho em jornal) e última rua que eu entregava o famoso “Estadão”, era a rua Djanira Motta, que na época eu não tinha nem ideia de quem se tratava. O distribuidor que me contratava era o Sr. Genez Parize, que também tinha uma banca no largo do mercado. Era 1972, quando comecei a cuidar da banca do sr. Genez. Em 1974 comecei trabalhar na banca em frente à Matriz que pertencia ao meu primo Sidney. A banca era o meu Google da época, onde eu tinha minhas referencias e todo o tipo de informações, além de fregueses de todos os tipos, entre eles um amigo que também gostava muito de desenhar, coisa que eu fazia o tempo todo para passar o tempo. O nome desse amigo é José Paulo de Latorre, que mais tarde se tornou professor na Faculdade de Belas Artes em São Paulo. Na Banca na época da Ditadura Militar, era um ponto de encontro de pessoas esclarecidas que criticavam o regime e eu garoto compartilhava as ideias, lia jornais e sempre deparava com colunistas que eu admirava e que acabavam presos e suas colunas suspensas apenas porque tinham ideias diferentes do regime. Nesse ambiente fui criando meu senso crítico para charges e caricaturas. Gostava muito de O Pasquim e do jornal Opinião, além da Folha de São Paulo.

Fernandes com Laerte
(Foto: Gilmar Machado)

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 O que você mais gosta de fazer, ilustração, charge, caricatura ou escultura?
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Acho que gosto de tudo, é como filhos, mas se a gente não consegue moldar um filho, no caso da escultura a gente faz. Perco a noção do tempo quando faço uma escultura.

“Jorge Luis Borges” Salão internacional de Piracicaba 2001

Exposição na Espanha

Você teve algum professor, mestre, alguém que te passou os primeiros ensinamentos, ou aprendeu na raça mesmo?
 
Nesses anos todos cheguei a conclusão que arte não se aprende, para mim, o dom nasce com a pessoa. Ninguém precisou por exemplo ensinar a arte de jogar bola para o Neymar. Ele nasceu sabendo que se bater com o pé em baixo da bola ele vai subir e se bater no meio ela fará uma linha reta e assim por diante…Assim como um jogador precisa de uma boa chuteira o artista também precisa de bons instrumentos de trabalho para melhor desempenhar o ofício. Assim como o atleta precisa de condicionamento físico, o artista também precisa de atividade o tempo todo. Orgulho dos meus calos nos dedos de tanto pegar no lápis. E a insatisfação, também é necessária para o artista, nunca ficar totalmente satisfeito com o trabalho, por mais lindo que possa parecer, procurar sempre melhorar e aprender a cada passo. Comecei dizendo que essa é a minha opinião, não significa que eu esteja certo, e que vamos acabar com as escolas de desenhos, nada disso. Como eu disse a Banca era onde eu buscava referencias e acho que as escolas fornecem referencias, mostram técnicas, estilos e tudo mais. E todo tipo de informação é sempre bem vinda. Aprendi muito trocando ideias com o Latorre que era da minha idade e na época a gente aprendia junto, ela era bastante didático, lembro que ele dizia: “Baixinho, isso que você fez é uma arte decorativa“. Imagino hoje o que ele diria da arte do Romero Britto. Voltando as escolas, na época por insistência do Latorre, eu fiz um curso por correspondência
(Instituto Universal Brasileiro), que o meu amigo Latorre também estava fazendo. Eu tinha uma preguiça de responder as perguntas e desenhar aquelas coisas programadas que quem acabava terminando os desenhos do curso para mim era o Latorre, eu só enviava e esperava a nota. O Latorre acabou professor na Faculdade de Belas Artes e eu fui trabalhar em jornal.
Em 1982, vim para a capital, para estudar na Escola Panamericana de Artes. Para sobreviver, embora morasse com os meus tios e dividia o quarto com meu primo, arrumei emprego no Jornal do Planalto e a noite estudava. Percebi que não estava aprendendo nada, tirava as melhores notas sem muito esforço, aprendia muito mais com as conversas que eu tinha com meu professor no caminho de casa, no metrô do que na sala de aula. Trocávamos experiências, pois eu já trabalhava com desenhos, fazendo charges, anúncios, infográficos, ilustrações, logotipos, selos… Sem contar a experiência que eu tinha da época que trabalhei na Gráfica Centenário em Avaré, como arte finalista, em 1981. Sai para vir para São Paulo.

Gilmar Machado e Fernandes
(Foto Claudiney Plaza)

 Você sabe quantos livros aproximadamente ilustrou? Qual foi o mais importante?
 
Ilustrei muitas coleções, trabalhei para várias editoras, entre elas, Companhia das letras, FTD, Moderna, Scipione, Paulinas, Editora Gente, Editora Abril, Sesc editora, Editora Atual,Editora do Brasil SA, Editora escrituras e várias outras menores. Foram várias coleções, posso dizer que foram mais de 200 livros ilustrados. Vou destacar a Coleção de 8 livros(editora Atual) da Turma do Gerson do X-tudo da Tv Cultura, 12 livros da Coleção Castelo Rá-Tim-Bum(Cia das Letrinhas). Destaco também coleção “Bons de Bola” da editora FTD. Recentemente eu e o Gilmar terminamos uma coleção HQ NA ESCOLA, uma adaptação de Samuel Murgel Branco. Além de tocar projetos sozinho, gosto de fazer parcerias e trocar ideias. Fiz parceria com Ricardo Girotto, Custódio e agora com o Gesiel Júnior. Tenho projetos em andamento com o meu sócio Gilmar Machado Barbosa.
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Cite alguns nomes importantes que influenciaram sua arte, pode ser caricaturistas ou artistas plásticos.
 
A lista dos artistas que eu gosto é enorme. Lembro que uma vez um professor me disse que eu era a reencarnação do Jota Carlos(1884-1950), eu nem conhecia o trabalho dele, fui pesquisar e acabei na época não curtindo muito. Hoje é um dos meus preferidos. Fico feliz por não ter tido influencia e trilhado o meu estilo. Michelangelo é outro que eu adoro, assisti várias vezes “Agonia e Êxtase”(1965) e li o livro na época da Banca. Pablo Picasso, Egon Shiele, Monet, Toulouse-Lautrec, Daumier. Os quadrinistas eu gosto do Sergio Toppi, Miguelanxo Prado, Will Eisner…Caricaturistas são muitos e muitos amigos no mundo todo, que não vou nem listar aqui. Alguns brasileiros das antigas: Chargista vou citar o genial Henfil (1944-88), ilustrador o Ziraldo(1932) e  cartunista o Alcy Linares(1943).

Fernandes com Alcy Linares
(Foto: Dárcio Tutak)

Dobradinha brasileira em Portugal: Fernandes e Baptistão
(Foto: Sueli De Pieri)

Conte nos como foi ser reconhecido e premiado com sua caricatura em outro continente, no caso em Portugal no PortoCartoon 2016.
 
A primeira vez que enviei um trabalho para um salão foi para Piracicaba em 2001, conhecia a fama do Salão internacional, como um dos mais importantes do mundo. Achava que seria muito difícil ser selecionado, mas acabei ganhando em primeiro lugar em caricatura. Até então eu já tinha o prêmio HQ MIX de Ilustração pelo Ra-tim-bum,  que é uma especie de Oscar das artes gráficas no Brasil. Ganhei também um HQ MIX de Melhor caricaturista do Brasil (2009). Além do Brasil tenho alguns prêmios fora do país: Romênia ,Itália, Portugal. Uma das experiências fora do Brasil, foi ser jurado na Turquia. Cada prêmio tem um significado muito especial, sempre o último é o melhor. Além do Porto Cartoon em Portugal, o World Press foi muito bacana e um prêmio muito disputado no mundo todo e fui pra Portugal receber o primeiro prêmio de caricatura, o ano passado.
O maior reconhecimento para mim, foi o ano passado em Piracicaba. Fiquei sabendo que estaria presente o Jean Mulatier(1947), caricaturista francês que eu acompanho há mais de 20 anos e que  admiro demais, levei um livro dele para colher um autógrafo. Não tinha ideia de que ele me conhecia, chegando lá encontrei o Alcy Linares me disse que o Mulatier estava perguntando de mim enquanto todo mundo estava babando ovo pra ele. Quando ele me encontrou eu estava até tremendo de emoção, ele me abraçou e disse: Eu te amo Fernandes! Nunca vi ninguém desconstruir uma caricatura como você! Você foge do clássico! Enfim, ele era meu fã, pensei, tem coisa errada aqui, eu sou o fã do cara. Não tem dinheiro que pague, um momento assim  é o maior prêmio.

Caricatura premiada no World Press cartoon

Jean Mulatier e Fernandes (Foto: Sueli De Pieri)

 
Sei que você tem trabalhado numa História em Quadrinhos sobre a pintora Djanira, conterrânea sua de Avaré. Fale para nós sobre este projeto.
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Cada vez fico mais apaixonado pela trajetória de vida da pintora Djanira Motta(1914-79). Estou curtindo muito o trabalho e muito feliz com a parceria do meu amigo de longa data: Gesiel Júnior. Ela foi um exemplo de dedicação e amor a arte. Conseguiu impor seu estilo, mesmo convivendo com grandes artistas. Uma lição que o professor de pintura da Djanira, Emeric Marcier(1916-90) deixou foi: “Eu ensino você a misturar as tintas, a temperar, mas não olhe para o meu trabalho, siga o seu caminho” e assim ela fez.

Estudo da HQ sobre a pintora “Djanira”

 
 Obrigado pelas perguntas. Grande Abraço.
 
Foi uma honra tê-lo em nosso site, espero receber novidades sobre seus trabalhos e premiações, um grande abraço Fernandes
 

 

Waldir Bronson

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