Entrevista com Guy Veloso

19 outubro 2017

Guy Benchimol de Veloso(1969) é um fotógrafo paraense e um dos grandes nomes da fotografia contemporânea brasileira. É formado em Direito, porém não exerce a profissão preferiu seguir sua paixão: a fotografia. Desde 1989 vem trabalhando com fotografia, seu tema primordial é a religião, onde documenta com seu olhar apurado cerimônias e procissões em todo Brasil e alguns casos até no exterior. Sua obra faz parte do acervo de diversas instituições espalhadas pelo mundo, entre elas:  Universidade de Essex, Centro Português de Fotografia no Porto, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna de São Paulo e também o Museu de Arte de São Paulo.

Guy Veloso “Umbanda”

Sua série “Entre a Fé e a Febre: Retratos“,  um projeto de documentação de romeiros no sertão do Nordeste  sobre grupos Penitentes do país, foram expostos na 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo.

Guy Veloso “Dupla exposição”

Guy Veloso “Círio de Nazaré”

Guy Veloso como fotógrafo documental, quando começou a se interessar pelos temas Religiosos?
 
Como sou de família católica, desde criança assisto o Círio de Nazaré, a maior procissão do mundo, em Belém-PA. Inclusive, a casa de minha avó ficava em uma das ruas que passa a romaria. Começar a pensar neste tema foi muito fácil, intensificando-se depois de 1993 quando fiz a pé o Caminho de Santiago, na Espanha.
 
Entre suas séries existe um vasto material cada um retratando a Fé de um local, desde o Sathya Sai Baba na Índia, o caminho de Santiago de Compostela na Espanha, Círio de Nazaré em Belém do Pará, qual deles te causou mais impacto?
 
O Caminho de Santiago foi minha experiência mais importante até agora. Devo a esta jornada muito do que sou hoje. Tatuei no pé direito “peregrino” e na memória uma vivência que me servirá para a vida toda. Já fotograficamente falando, a série sobre os Penitentes, iniciada em 2002 e ainda sem data para terminar, tem sido minha obsessão. Foram até agora 178 grupos documentados. Tive a sorte de ser o primeiro pesquisador a provar a existência dos rituais de Encomendação das Almas nas 5 regiões do país.
 
Sua lente tem o poder de registrar os rituais e as manifestações culturais brasileiras que dizem respeito a fé, existe um assunto que você ainda gostaria de registrar ?
 
Claro! Um deles é o ritual do Lambe-Sujo que acontece em Laranjeiras-Sergipe no segundo domingo de outubro… Ou seja, no MESMO dia do Círio de Nazaré… E agora?

 

Sua série de fotografias “Penitentes” mostra uma prática muito comum da igreja católica na Idade Média que é a autoflagelação, como foi registrar algo tão intenso? 
 
Estas pessoas documentadas sempre aparentam estar em um transe místico. E eu acabo entrando nele já que fotografo muito de perto (não só fisicamente, como emocionalmente). 

Guy Veloso série “Penitentes”

    
Numa época em que a banalização da imagem, como os “selfies”, se propagam de uma maneira impressionante, qual a sua opinião como um fotógrafo artístico?
 
É válido sim. Quanto mais fotografar, melhor. Acredito que parte destas pessoas em algum momento despertará para uma subjetividade em seu ato fotográfico…. Otimista demais? (risos)
  
Quais são suas referências?
 
 Falar de influências é certamente esquecer nomes importantes… Mas vamos lá! Em primeiro lugar a pintura: Bosh, Bruegel, Rembrandt, Rubens, Monet, Picasso, Dalí, Saura, Volpi, Djanira, Moacir, Thiago Martins de Melo… Da arte tridimensional, obras pré-históricas, pré-colombiana, esculturas africanas, Ajeijadinho, Mestre Valentim, Bispo do Rosário, arte bruta e os ex-votos do sertão brasileiro… Da poesia, Pessoa, Borges, Rimbaud, Neruda e Renato Russo. Dos clássicos da fotografia, Bresson (como não falar dele?), Robert Frank, Verger, Orlando Azevedo… Dos contemporâneos brasileiros, Salgado, Tiago Santana, José Bassit, Luiz Braga, Walda Marques, Flavya Mutran, Octavio Cardoso, Luciana Magno, Rogério Reis… São tantos…
Dos teóricos, Sotang, Barthes, Boris Kossoy, Orlando Maneschy, Ronaldo Entler, Rubens Fernandes, Alexandre Belém, Georgia Quintas…
Foto da Capa de Orlando Azevedo

 

 

Waldir Bronson

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