Djanira, contra o rótulo “Primitivista”

8 dezembro 2012

Djanira da Mota e Silva, nascida no interior de São Paulo na cidade de Avaré em 1914, brasileira. Dona de desenhos, gravuras e pinturas é a mais brasileira das pintoras, por pintar verdadeiramente nosso povo, trazendo em cores, formas, linhas retas e sinuosas, uma mistura de abstracionismo formal e arte indígena, ou melhor: Arte Brasileira.

Djanira, Olaria Itaipava, sem data “Tons terras, numa indução de profundidade. Abaixo uma comparação com a arte indígena da tribo Canela com quem Djanira conheceu em Goiás”

Bolsa de fibra de Buriti da Tribo Canela do Maranhão “O Contato com esta tribo, aproximou-a mais ainda das raízes brasileiras”

O estilo inconfundível , agregado a brasilidade fez com que a maneira desta pintora diferisse-a das outras artistas modernas do mesmo período. A obra “O Circo” de 1944 agrega a influência da consagrada pintora abstracionista portuguesa Maria Elena Vieira da Silva ou Vieira da Silva. A experiência plástica de ambas artistas aproximaram-se, nas cores chapadas e no pensar a síntese das figuras geométricas, entretanto mesmo sua arte flertando e absorvendo fontes tão qualificadas e respeitadas, foi sempre rotulada simplesmente como “primitiva” ou “ingênua”(Naïf), nem mesmo o peso de sua visão social, um aspecto intrínseco e as vezes negligenciado pelos chamados “críticos de arte”, formatando sua arte em padrões estéticos limitados, certa vez a pintora comentou sobre o assunto: “Já encontrei minha maneira de pintar muito diferente dos primitivos”.

Djanira, O Circo de 1944 “Os recortes geométricos e a estrutura linear de sua obra mudou após o contato com a obra da pintora portuguesa”

“Comecei a pintar desenhando o mundo modesto
que me cercava: meus animais, minha varanda,
o interior da casa, retratos de vizinhos.
O estudo de observação amorosa das coisas que
estimava. Tudo em preparação lenta, porque,
graça a Deus, nunca fui habilidosa”

Djanira (Correio da Manhã, 1967)

Vieira da Silva, O desastre, 1942 “Sintetização formal das figuras”

Num contexto sócio-cultural encontramos uma ditadura atroz, que seguiu de 1937-45 com Getúlio Vargas e inserida está Djanira, não somente sofrendo o preconceito de ser artista, mas também o pior: o de ser pintora e mulher. Mesmo assim vemos uma evolução clara em seu trabalho, na obra Retrato de José Shaw da Motta(seu esposo) de 1954, a Fase Azul de Pablo Picasso é representada. Pairou sobre a mente de diversos artistas nacionais como: Cândido Portinari, Vicente do Rêgo Monteiro e Milton Dacosta, a visão sintetizada do cubismo em suas obras. No entanto o uso das formas na obra de Djanira, não está ligada a proximidade que teve de Dacosta, como parece, e sim da exposição que presenciou de Vieira da Silva no Museu Nacional de Belas-Artes no Rio de Janeiro em 1942, quando esta artista e seu esposo Árpád Szenes residiram no Brasil . No tradicional bairro carioca de Sta. Tereza, reduto de diversos artistas , Djanira juntamente com Emeric Marcier e outros , apreciaram o olhar caleidoscópico da abstracionista lusitana, sobretudo acredito que esta mostra influenciou decididamente a estrutura da o obra Djaniriana.

P. Picasso, Refeição do Cego de 1903 “Tons sombrios e frios”

Mesmo sendo conhecida por sua vertente religiosa, a pintora avareense mostrou com clareza o foco diante dos trabalhadores e do trabalho no Brasil. O embate que seguiu até a consumação de seus dias foi o conflito do Erudito e com seu lado Ingênuo. Nos anos 70 há um refinamento de sua arte, mais geometrizada e com uma paleta de cores harmoniosamente vibrantes, revelou assim uma nova pintora, talvez pela tendência Concreta da época ou pelos espaços formais de Vieira da Silva, enfim chegou no apogeu de sua história artística. Lembrando do artista japonês Katsushika Hokusai que certa vez revelou que somente após os 70 anos começou a fazer algo interessante em sua arte, sem comparações pejorativas, mas o desenvolvimento de Djanira nunca parou, tornou-se maduro e só parou em 31 Maio de 1979, quando faleceu no Rio de Janeiro

Djanira, Mina de Ferro de 1976 “Amadurecimento de cores e formas mais delineadas”

Mina de Ferro com 160 x 220 cm de 1976 “As dimensões grandes de sua pintura foi um caminho natural para o muralismo”

Vieira da Silva, Inverno de 1951 “Mesmo sem contactarem, ambas seguiram o caminho linear de suas artes, cada uma com uma poética, uma mais Alegre e Vivas, outra mais Profunda e Melancólica”

Entender a Arte Primitiva, não é entender a incapacidade e sim a essência de nós seres humanos, muito diferente da Arte Ingênua ou Naïf (em francês). O primitivismo é uma corrente que busca referência em artes puras, como as artes indígenas, africanas e de outros povos. O desapego com o ensino acadêmico, fez com que tanto a arte “Ingênua” como a “Primitiva” tivessem um ponto aparentemente comum, todavia não devemos confundir uma com o outra, pois como a palavra diz, “Ingênuo” é um artista desapegado aos padrões e as leis tradicionais de criação artística e o artista “Primitivo” pode ser um Paul Gauguin por exemplo, que buscou em sua arte as referências da arte da Polinésia no Taiti.

Embora alguns autores tenham escrito sobre Djanira e realizado materiais, muitas informações são ainda confusas, já que existem grandes mistérios sobre esta pintora, que nunca teve filhos ou descendentes próximo ainda vivos. Ainda não existe ainda um trabalho grandiosamente sério de valorização desta pintora, digna de um reconhecimento muito maior, infelizmente. Embora alguns autores tenham escrito sobre Djanira e realizado materiais, muitas informações são ainda confusas, já que existem grandes mistérios sobre esta pintora, que nunca teve filhos ou descendentes próximo ainda vivos.  Infelizmente muitos desconhecem o trabalho desta pintora que é talvez a mais brasileira de nossas pintoras, pois representou o que temos de mais rico: nosso povo.

Paul Gauguin, Annah,A Javanesa, 1894 “Elementos da Arte Européia e a simbiose da Alma Taitiana.

Waldir Bronson

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