Dersu Uzala “A águia da estepe”

6 Fevereiro 2018

Dersu Uzala é um filme de 1975 de  Akira Kurosawa, realizador desta coprodução entre a extinta União Soviética e o Japão, e primeiro filme do diretor inteiramente em língua estrangeira. Depois de seguidos fracassos cinematográficos em (Tora! Tora! Tora!, 1970) no qual foi ludibriado por uma proposta enganosa norte-americana  e de (Dodeskaden, 1970) sua primeira produção em cores, Kurosawa afunda numa profunda depressão, sem financiadores japoneses para seus filmes, Kurosawa  tenta um suicídio. Porém em 1973 recebe uma proposta da Mosfilm produtora soviética, para realizar um filme baseado na auto-biografia do Capitão Vladimir Arseniev ou melhor, baseada na sua experiência durante uma expedição no leste da Rússia com um eremita da tribo Goldi: Dersu Uzala.

Em 1902 no extremo leste da Rússia um grupo de soldados são enviados para cartografar o território russo e topografa-lo, durante a primeira noite ao acender a fogueira se deparam com uma figura exótica, um homem pequeno de aspecto oriental um tanto perdido se aproxima do grupo e é convidado pelo Capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin) a se juntar a expedição por ser um grande conhecedor da região, seu nome é: Dersu Uzala (Maksim Munzuk). Uma das coisas mais incomuns é o fato de Dersu conversar com a natureza, no primeiro instante de aproximação ele apaga um tição e retruca dizendo que ele estava fazendo muito barulho e que precisava dormir. Muitas vezes Dersu faz previsões sobre o tempo ou sobre a natureza que parecem absurdas ao olhos dos outros, mas que aos poucos vão se concretizando e se tornando verdadeiras. Dersu Uzala é um tipo eremita daqueles que caminham sem destino, tem uma conexão imensa com a natureza e suas crenças pessoais são tão diferentes, que parecem insanas aos olhos dos soldados. A capacidade de Dersu de sobrevivência e improvisação é impressionante, mesmo nos momentos mais críticos aquele pequeno homem de idade avançada sempre encontra uma solução, quando salva a vida do capitão ao prever um vendaval de neve e cria um cabana improvisada com palhas e um tripé,  ali nasce uma grande amizade e um elo entre ele e o capitão, quando salva sua vida. Kurosawa tenta evidenciar a força de uma amizade e uma mensagem altruísta muito grande, o próprio capitão Arseniev reflete o fato de Dersu Uzala deixar mantimentos para os próximos viajantes que entrarem na cabana que os mesmos acabam de deixara, como pode um homem se preocupar com pessoas que ele nem conhece?

Akira Kurosawa praticamente não usa closes-ups,  sempre planos abertos para capturar a grandiosidade das planícies e contemplar a beleza das estepes russas nos colocando dentro daquele ambiente selvagem, acredito que isto mostra o quanto somos pequenos diante da imensidão da natureza. Apesar de ser o segundo filme do diretor em cores, percebemos uma sensibilidade e uma maturidade em equilibrar a fotografia, com contrastes em cenas na neve e cores vivas nas cenas de floresta.

A segunda parte do filme marca o reencontro com o velho amigo numa segunda expedição, Capitão Arseniev e Dersu se cumprimentam como se conhecessem há muitos anos. Certo momento, Dersu relata ao Capitão que caçara muitos “dentes de sabres”, porém o dinheiro foi deixado com um comerciante que simplesmente desapareceu com todas suas economias, o velho ermitão não acredita como uma pessoa pode tomar posse e sumir com algo que não é seu, o Capitão ouve e não diz sequer uma palavra, já que no mundo de Dersu atitudes como estão são inimagináveis e infelizmente no mundo civilizado em que vivemos fatos como estes são corriqueiros.

Kurosawa na metade do filme para o fim, aborda assuntos como a velhice, o companheirismo e o misticismo.  Durante um empreitada para atravessar um rio, o grupo se vê em apuros quando a correnteza se agita e todos tem se lançar fora para escapar do pior, apenas o pequeno Dersu fica na balsa até que o mesmo num último instante agarra em alguns galhos e se salva, ali observamos a união de todos e o companheirismo e a tenacidade de não se abalar nas dificuldades.

A ruína do nosso herói acontece quando o mesmo dispara contra um Tigre, animal sagrado segundo sua crença, a partir de então Dersu torna-se um homem amargo e mal humorado, crente que está amaldiçoado por ter matado aquele animal. O misticismo daquele pobre homem não deixa que ele veja a velhice e sua perda da visão como algo natural da vida, mas sim como um castigo divino. As memórias destes dois companheiros são narradas até o fim pela locução do próprio Capitão Arseniev que por fim consegue levar seu amigo para viver na cidade, ficando ao espectador o juízo de levar aquele ser tão livre e desprovido de regras a viver em um sociedade.

Dersu Uzala faz parte daqueles filmes únicos, que não se encontra paralelos sobre o tema e que nos faz refletir sobre diversos assuntos e convenções que nos são impostas. A parceria de Akira Kurosawa com um elenco estrangeiro não foi um obstáculo , mas sim o desbravar de uma nova fronteira inexplorada.

Capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin) e Dersu Uzala (Maksim Munzuk)

Maksim Munzuk é um ator nativo da região escolhido para interpretar Dersu Uzala, que o fez com tanto empenho que até parece o próprio Dersu

Capitão Arseniev e Dersu Uzala, foto original de 1906

Akira Kurosawa(1910-98) um dos grandes diretores japoneses de todos os tempos

 

Waldir Bronson

Previous story Next story

T

o

P

o