Barroco Espanhol: Murillo, Velázquez e Zurbarán

3 julho 2017

O Barroco espanhol não foge do modelo italiano e da forte influência do estilo chiaroscuro de Caravaggio, porém contém elementos que o torna muito singular, com intensa fé cristã e retratos quemostram a espiritualidade daquele tempo. Uma das grandes características do Barroco é o profano, obras sobre a mitologia grega e seus deuses,  o profano se contrasta com o cristão mesmo assim ambos convivem em harmonia como em Caravaggio, Zurbarán e Velázquez.

Um dos grandes centros culturais da Espanha era a cidade de Sevilha em Andaluzia, ali surgiram e trabalharam os grandes nomes da arte espanhola, como: Diego da Silva y Velázquez, Bartolomé Esteban Murillo e Francisco Zurbarán.

Inmaculada_Concepción de los Venerables o de Soult de Murillo (1678)

Bartolomé Esteban Murillo(1618-1682) nasceu em Sevilha onde passou toda sua vida, pintor sacro foi influenciado por numerosas obras flamengas e italianas presentes nas igrejas sevilhanas. Sua obra se divide por imagens religiosas e  imagens da realidade social de sua cidade, como meninos de rua, mendigos, entre outros. Sua maneira ora se assemelha com tenebrismo e estilo escuro como de Caravaggio, ora com colorido vivaz como em suas pietás e madonas. Um aspecto interessante em sua obra é  o olhar sobre aqueles menos favorecidos, tamanha riqueza de pinturas de temas sociais, que poderia fazer outro texto apenas acerca deste assunto. Suas pinturas sobre meninos, são uma mescla de inocência e até um certo romantismo, geralmente mostram garotos se alimentando nas ruas, descalços; alguns com ar de melancolia como “O jovem mendigo”(1645-1650) esta pintura Murillo mostra um garoto mal trapilho, sentado com os pés sujos tirando pulgas do próprio corpo, talvez Murillo quisesse dar algo de dignidade a estas pessoas esquecidas.  Murillo faleceu de uma maneira inesperada, quando pintava a enorme composição “Nupcias de Santa Catarina” no Convento dos Capucinhos em Cádiz caiu do andaime e deixou um enorme legado na pintura espanhola.

“O jovem mendigo” de Murillo (1645-50)

“Meninos jogando dados” de Murillo (1675)

Diego da Silva y Velázquez(1599-1660) foi sem dúvida um dos maiores pintores espanhóis de todos os tempos, seu estilo influenciou gerações como os impressionistas. Apesar de ser obscuro como seus contemporâneos Velázquez soube trabalhar com a luminosidade como ninguém, tinha pinceladas soltas e a enorme capacidade de capturar caráter em suas pinturas como no famoso retrato do “Papa Inocêncio X” (1650-51). Seus primeiros ensinamentos aconteceram em Sevilha no ateliê de “Francisco Herrera, O Velho” seu futuro sogro. 1622 viaja para Madrid afim de se tornar o pintor oficial da corte de Filipe V, no entanto retorna frustrado. No ano seguinte realiza um retrato do rei e envia para o mesmo, sendo aceito como pintor oficial da corte até fim de sua vida. Em 1628 em Madrid conhece o pintor flamengo Peter Paul Rubens que o incentiva a conhecer a pintura italiana de perto, fora as obras que conhecera nas paredes das igrejas de Sevilha e as obras de Ticiano, o antigo pintor da corte. Na Itália Velázquez teve contato de perto com mestre da cor como Ticiano e gigantes da Renascença, este lá em duas ocasiões de 1629 a 1631 e 1649 a 1651, na segunda estadia realizaria a famosa pintura do Papa Inocêncio, capturando o ar mal humorado do pontífice, no séc.XX o pintor irlandês Francis Bacon(1909-1992) se inspirou nesta obra para criar sua série “Os Papas do Horror”.

“Papa Inocêncio X” de Velázquez (1649)

As Meninas de Velázquez

A pintura de maior relevância de Velázquez foi “As meninas” (1656) nesta obra-prima Velázquez faz um auto-retrato no instante em que executa um retrato da família real, nesta obra existem elementos muito simbólicos como o cão na parte direita inferior, o guarda ao fundo segurando a porta e os personagem em volta da infanta Margarida revelam as mordomias, com criados,  uma anã e até um bufão brincando com o cão. Esta pintura em particular revolucionou a história da arte por si só, por mostrar a visão inversa de uma obra de arte, na visão do retratado, ao invés da visão do artista. Existem dois espelhos nesta obra, o que está na frente do pintor e o um ao fundo, onde pode ser ver refletidos nele o rei Filipe IV e a rainha Ana da Áustria.

“As meninas” de Velázquez(1656)

Velázquez era o servo real que qualquer monarca gostaria de ter, competente e leal,  assumiu algumas funções além de pintor oficial do rei, como embaixador por exemplo. Velázquez faleceu de febre em 1660, sua obra não foi tão influente em seu tempo por ser conhecido apenas nos círculos da corte, futuramente ele serviria de inspiração para muitos artistas do séc. XIX e XX.

“Hércules matando Gerião” de Zurbarán (1634)

Francisco Zurbarán(1598-1664) pintor sacro em sua essência, sua pintura tem o poder de expressar toda a fé e cristandade dos ícones da igreja católica. Sua técnica traz o barroco de Caravaggio nos fundos negros, suas imagens surgem das sombras iluminadas apenas de um lado. A solução adotada por Zurbarán para destacar suas imagens pintando todo o fundo de preto, torna suas obras um tanto modernas, um artifício poderoso em seus retratos, principalmente dos monges, seus monges trazem um ar de melancolia que complementa o misticismo de sua obra.  Foi chamado de o “pintor dos monges” pela quantidade enorme de monges que executou sempre com cores acinzentadas pendendo para o amarelo. Zurbarán nasceu em Fuente de Cantos, mas foi enviado para Sevilha na juventude para estudar com o pintor Pedro Diaz Villanueva. Seu estilo próprio fez com que se torna-se o pintor oficial da cidade. Além dos temas sacros, Zurbarám realizou Naturezas-Mortas e também temas profanos como na série “Os 12 trabalhos de Hércules” (1634). Nas suas pinturas de São Francisco(1635-39) podemos absorver o máximo da fé de um santo coberto por um capuz buscando alento dos céus, sua postura ou prostrado ou olhando para o alto busca algo que está além da terra, sua postura corporal e a crânio presente revela a vaidade vã do mundo terreno, pois tudo pode acabar com a morte.  Apesar de fazer carreira em Sevilha passou o final de sua vida em Madrid onde faleceu em 1664, tendo visto seu reconhecimento artístico ainda em vida.

“São Francisco” de Zurbarán (1650-60)

“São Francisco com a caveira nas mãos” de Zurbarán (1658)

 

 

 

Waldir Bronson

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