A face obscura de John Carpenter

21 julho 2017

John Howard Carpenter(1948) é um realizador, roteirista e compositor de trilhas sonoras norte-americano, embora esteve ativo no mundo do cinema da metade dos anos 70 até os anos 2000, hoje vemos muito pouco ou quase nada da atividade deste grande cineasta, que deixou alguns títulos como: “Fuga de Nova York”(1981), “Halloween – A Noite do Terror” (1978), Eles vivem (1988) e “Assalto à 13º DP”(1976).

Os Moleques do Cinema

Na década de 1970 a bilheteria caiu mais que a metade comparado aos 43 milhões de norte-americanos que iam todas as semanas aos cinemas nos 60. Mesmo sendo a indústria cinematográfica um ramo arriscado de se ingressar, os anos 70 conseguiu se superar e lançou grandes sucessos como “O Poderoso Chefão”(1972,) “Tubarão” (1975), “Taxi-driver” (1976), “Guerra nas Estrelas”(1977) entre outros.  Jovens cineastas surgiram com novas ideias e produções respeitáveis de público e crítica, estes “garotos do cinema” beberam de fontes como Akira Kurosawa, Alfred Hithcock e John Ford, alias estes garotos que hoje já não são garotos são: Steven Spielberg, Martin Scorsese, Brian de Palma, Michael Cimino, John Carpenter, entre outros.

Neste mundo incerto, com as bilheterias despencando cada vez mais é que John Carpenter iniciou sua carreira como cineasta. Seu primeiro longa-metragem lançado em 1974 foi “Dark Star” com o próprio dinheiro, esta produção de ficção científica já traz o estilo fantástico do diretor, esta primeira tentativa de emplacar com um filme sombrio ambientado no espaço foi um fracasso financeiro e Carpenter seguiu como roteirista e fazendo filmes para TV para angariar dinheiro.

Finalmente em 1976 chegou o reconhecimento, homenageando o diretor Howard Hawks, baseando em seu filme “Rio Bravo”(Onde começa o inferno) de 1959, neste filme um xerife enfrenta quase sozinho uma legião de criminosos, no filme “Assalto ao 13º DP” ambientado num Departamento de Polícia mostra  a luta contra gangues numa batalha numericamente desleal.  A trilha sonora composta pelo próprio diretor e o as cenas sombrias dão um tom tenebroso que até anuncia um dos estilos prediletos deste diretor o “terror”, as cenas de violência são bem reais e convincentes e os ambientes vazios e as ruas desertas ditam o ritmo lento que culmina  no ataque ao departamento de polícia. Os críticos receberam bem este filme, porém não teve um bom sucesso comercial, anos depois se tornou “cult”.

Em 1978 Carpenter se enveredou por um gênero que seria considerado um “mestre” por muitos, o “Terror”. “Halloween – A noite do terror” foi o primeiro filme de uma série e um dos mais rentáveis da história dos filmes independentes. A história conta a fuga do psicopata Michael Myers  duma instituição psiquiátrica sedento por sangue e retorna para sua cidade , neste filme temos a estréia de Jamie Lee Curtis nos Cinemas.  “A Bruma Assassina” (1979) novamente repete a dose do sucesso de “Halloween” e novamente com Jamie Lee Curtis, Carpenter explora o gênero do horror, onde uma locutora de rádio anuncia a chegada de uma estranha bruma em uma cidade costeira e um navio assombrado chega com uma estranha tripulação prontos para aterrorizar a cidade. Carpenter usava de diversos artifícios para dar tensão, um deles muito usados por diretores de terror, colocar um som súbito mesclado com uma cena, um acorde soa repentinamente com uma cena de ação, fazendo com que o expectador seja pego desprevenido.

Sem dúvida “Fuga de Nova York“(1981) foi o filme de maior sucesso do cineasta, protagonizado por Kurt Russell ator recorrente em seus filmes. Fuga de Nova York é um filme de ficção científica ambientado em um mundo pós-apocalipse, Snake Plissken um ex-militar e criminoso famigerado é incumbido de resgatar o presidente norte-americano num enorme complexo prisional construído na ilha de Manhattan. Além de um grande elenco(Lee Van Cleef, Ernest Borgnine, Donald Pleasence, Harry Dean Stanton, Isaac Hayes) traz um bom roteiro, uma visão tenebrosa do futuro e um personagem forte como protagonista faz deste o melhor filme de John Carpenter, mesclando todos os elementos de seus filmes: ação, suspense e ficção científica. Este filme teve uma continuação “Fuga de Los Angeles”(1996), as opiniões se dividem quanto a este filme, muitos acham que perdeu a essência do primeiro, porém acredito que vale a pena assistir a continuação e última aparição de Snake Plissken.

No ano seguinte baseado no filme “O monstro do Ártico”(1951) Carpenter realiza  “O enigma de outro mundo“(1982) mais uma parceria com o ator Kurt Russell que rende um bom filme. Ambientado na Antártida, uma força sobrenatural vindo do além consome os habitantes de uma colônia de pesquisadores, este alienígena que se apodera dos cientistas não apresenta sintomas claros, então cada um pode ser um suspeito. Apesar da qualidade de seus filmes nem todos eram bem recebidos pelo grande público, fazendo com que a relação do diretor e os grandes estúdios fosse um embate em sua carreira, apesar de sua enorme qualidade como diretor e da crítica, suas produções não enchiam os cinemas como os produtores queriam, isto causou um certo ressentimento por parte de John Carpenter com Hollywood e infelizmente não é citado no hall dos grandes diretores injustamente.

Jeff Bridges é o ator protagonista de “Star Man – O Homem das Estrelas”(1984)  como o título já diz um habitante de outro mundo é enviado a Terra para uma missão de paz, porém acaba sendo atacado durante a viagem, “Scott” assume a identidade de um homem já falecido e sua viúva se afeiçoa a ele, ajudando a retornar ao seu planeta de origem, vale ressaltar a atuação de Bridges, indicado ao Oscar de melhor ator.  Ficção Científica é um dos gêneros preferidos deste diretor que comanda com muita competência, vale lembrar que nos anos 80, ele concorria com diretores de peso deste gênero, como: Ridley Scott, James Cameron e Steven Spielberg.

Os Aventureiros do Bairro Proibido” (1986) é um filme interessante do ponto de vista fantástico, como são os filmes deste diretor,  misturando magia e realidade; podemos classifica-lo como gênero de Fantasia, mas a visão extraordinária e até surreal de Carpenter é seu diferencial, trazendo sempre personagens místicos da cultura oriental, com uma certa dose de humor é claro. Este é o quarto dos cincos filme que fez parceria com Kurt Russell.

Um dos filmes mais cultuados de John Carpenter, mas que não teve muita bilheteria na época foi “Eles Vivem” (1988), com um orçamento baixíssimo para uma produção cinematográfica norte-americana(US$ 3 milhões). Carpenter conseguiu fazer desta ficção científica uma crítica voraz a sociedade capitalista e ao consumo demasiado moderno. John Nada é um operário recém chegado em Los Angeles a procura de emprego, quando adentra em uma igreja encontra uma caixa repleta de óculos, ao colocar este óculos descobre que a sociedade está corrompida e controlada por alienígenas, assim ele começa uma luta para expulsar estas forças invasoras.  Ao olhar os outdoors e durante o filme  aparecem inúmeras mensagens como : obedeça, compre, não questione a autoridade, este é o seu Deus, em um maço de dinheiro.  “Eles vivem” não é um filme comum de ficção científica, pois  tem uma crítica social pesada, e por isso não foi comercialmente viável aos grandes estúdios de Hollywood.   Algumas cenas são icônicas e suas frases eternizadas, por exemplo quando  Nada entra numa agência bancária com uma calibre 12 e diz: ‘Eu vim mascar alguns chicletes e chutar algumas bundas, mas acabaram-se os chicletes”.

John Carpenter é um diretor lembrado pelos gêneros de Ficção Científica e Terror, porém transitou pela comédia, ação e policial. Bebeu das fontes dos grandes mestres do Cinema e foi boicotado pelos grandes estúdios por não fazer filmes comercialmente viáveis, mas que adquiriram milhares de fãs nestas quatro décadas de produção. Hoje ele faz concertos musicais revivendo suas belíssimas trilhas sonoras que compôs para seus filmes. Seu auge foi a década de 70 e 80, depois vieram algumas produções de boa qualidade, mas que aos poucos foram diminuindo com o decorrer do tempo, hoje Carpenter vive da glória de seus grandes clássicos do “Cinema Cult”.

Assalto à 13º DP de 1976, releitura de “Rio Bravo”

“Halloween” (1978) Jamie Lee Curtis com o psicopata Michael Myers

A Bruma Assassina(The Fog) de 1980

Snake Plissken herói de “Fuga de Nova York” de 1981

Cartaz original de “Fuga de Nova York” (Escape from New York)

Efeito Especial de “O Enigma de outro mundo” (The Thing) de 1982

Jeff Bridges e Karen Allen em “Star Man- O homem das estrelas” (1984)

“Os Aventureiros do Bairro Proibido” (1986)

Eles Vivem (They Live) de 1988

 

Waldir Bronson

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