A Bienal de Arte: Ontem e Hoje

15 dezembro 2018

Estamos no ano de um dos eventos mais importantes no calendário artístico mundial, a Bienal Internacional de Arte de São Paulo em sua 33º edição. Porém este texto, faz refletir o papel deste evento e qual sua função no mundo artístico e uma pergunta que acredito seja imprescindível: Será que a Bienal representa a produção artística do Brasil e do mundo, ou se tornou mais um evento para aqueles que já estão no mercado de arte?

A primeira Bienal Internacional de Arte de São Paulo aconteceu no MAM-SP e contou participação de grandes nomes da arte mundial

Em 1951 com apoio dos entusiastas da arte da aristocracia brasileira, o casal Yolanda PenteadoCicillo Matarazzo foi criada a 1ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo que se tornou uma grande exposição de Arte Moderna, tendo nela grandes nomes da arte internacional como: Pablo Picasso, Alberto Giacometti, René Magritte e George Grosz  e  também nacional, como: Candido Portinari, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Victor Brecheret. Não podemos esquecer da Bienal de Veneza(1895) como paralelo no surgimento da Bienal, que se tornou uma grande inspiração para sua criação.  A partir de então o público brasileiro teve contato com nomes proeminentes da arte mundial.

Ivan Serpa “Formas”, 1951 “Além de vencer prêmio de jovem pintor,Ivan Serpa adere ao concretismo e abre um caminho para os que iriam ser chamados de “neo-concretismo”

A escultura “Unidade Tripartida” do artista suiço Max Bill influenciaria os movimentos concretos da América Latina, principalmente: Brasil e Argentina

Fica evidente a importância desse evento no cenário mundial, quando em sua segunda edição em 1953  a obra “Guernica”(1937) de Pablo Picasso foi exposta,  tamanho peso e importância dessa obra no panorama artístico que grande parte da produção artística nacional e latino americana foi influenciada pelo seu estilo, sobretudo na obra de Cândido Portinari. Outros artistas dessa leva de vanguardistas europeus iriam desembarcar aqui e seriam decisivos nos movimentos de arte que aqui iriam florescer, como o neoplasticista Piet Mondrian, o experimentalista Paul Klee e a Arte Cinética de Alexander Calder.  Foi também neste ano que o prédio construído por Oscar Niemeyer no Ibirapuera abrigaria de uma vez por todas o evento.

Guernica em exposição na Bienal de Arte de São Paulo de 1953. Na foto, Ciccillo Matarazzo, responsável por trazer a obra de Picasso, em destaque ao lado de Juscelino Kubitschek

Nos anos seguintes a Bienal se firmaria como um bastião de arte moderna e contemporânea, sendo o principal do hemisfério sul e um dos principais do mundo. Vimos chegar por aqui trabalhos dos Muralistas Mexicanos em 1955, os Surrealistas e a Action Painting de Jackson Pollock em 1957.  Sob a curadoria do famoso crítico de arte Mário Pedrosa em 1959,  o dadaísta Kurt Schwitters e uma retrospectiva de Alfredo Volpi.  A Bienal vivia tempos prósperos, trazendo o suprassumo da arte estrangeira para nossas terras,   porém com o Golpe Militar(1964) as coisas mudariam um pouco, muitos artistas boicotariam o evento e a repressão política diminuiria a quantidade de participantes, embora muitos artistas da Pop Art ainda participaram.  Nos anos 80 o curador Profº Walter Zanini traria mais credibilidade ao evento ao resgatar artistas e apresentar ao público grandes nomes das arte contemporânea brasileira como Antonio Dias(1944), Cildo Meireles(1948) e Tunga(1952-2016).

Na 9º edição da Bienal(1967), a obra da série “Meditação sobre a bandeira nacional” foi destruída pelos militares alegando que tal conteúdo feria o orgulho nacional, e o artista Quissak Jr. quase foi preso.

O que virou a Bienal?

Na 28ª Bienal de Arte(2008), também chamada pejorativamente de Bienal do Vazio, onde o segundo andar do complexo foi propositalmente fechado e proibido a entrada do público, para valorizar e refletir o conceito do vazio,  a invasão de 40 pichadores antes mesmo da abertura do evento, revelou um descontentamento quanto aos equívocos tomados pela curadoria do evento, meios de comunicação se posicionaram e a comunidade artística, aquela que parecia intocável começaria a apresentar suas primeiras fissuras. Dois anos depois o artista Nuno Ramos foi duramente criticado por organizações de proteção aos animais por  manter Urubus presos dentro das dependências do prédio no Ibirapuera, no entanto tal prática já não era tão incomum como se imaginava, muitos artistas contemporâneos já inseriam animais em suas obras (como a performance de Joseph Beuys de 1974 onde o artista ficou confinado com um Coiote Selvagem, como abordei no texto anterior) , porém da forma como foi feita não teve um resultado positivo.

Em 2008 40 pichadores encapuzados invadiram o prédio da Bienal e realizaram uma série de pichações no andar que ficaria fechado, como forma de protesto

Bienal e Arte Contemporânea são duas coisas inerentes ,os novos conceitos da arte contemporânea são bastante abrangentes e passíveis de infinitas interpretações, um deles é a “maneira” do artista que no passado era muito valorizada, não existe mais “o fazer”, como presava os antigos artistas, muitas vezes o artista nem monta sua própria obra, ele apenas apresenta um manual onde terceiros irão executar sua ideia e as intenções desse artista pode ser muito subjetiva, ainda assim as pessoas param diante de “instalações” e “intervenções” monumentais admiram e se perguntam silenciosamente: O que significa isso? Como sabiamente o artista moderno suíço Paul Klee proferiu certa vez: Eles não esta conosco. Se referindo o distanciamento da arte moderna com o grande público.

Infelizmente a Bienal ao longo de algumas décadas se tornou um evento restrito ao mercado de arte internacional e aqueles do establishment*.  Não existe uma curadoria com uma visão abrangente da produção artística como em outrora, apenas tendências que se formam em núcleos restritos que envolvem galerias e grandes instituições da arte, com obras e artistas pré-fabricados por estas organizações e corporações. Engana-se aquele que acredita estar nutrido de toda arte realizada nos quatro cantos do planeta, já que tal evento mostra a produção de um grupo restrito e privilegiado de artistas com critérios bastante questionáveis sobre “o que é arte”.

*Establishment: Grupo de pessoas que detêm a maior parte do poder e da influência na sociedade, concentrando os meios de ação no país e exercendo sua autoridade em defesa de seus próprios privilégio.

 

 

Waldir Bronson

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