Entrevista com Júlio Shimamoto

12 agosto 2018

Júlio Shimamoto(1939) nasceu em Borborema interior de São Paulo. Quando tinha apenas 5 anos de idade ganhou de presente três gibis do pai, o que o fez tomar gosto pelo desenho e uma paixão instantânea pela Histórias em Quadrinhos. Começou a rabiscar compulsivamente jornais velhos com lápis e pena, e no chão de terra, com graveto. Ainda hoje, conserva o hábito de esboçar em jornais, pintar em sacos plásticos descartados, ou azulejos, por acreditar que isso ajuda a preservar árvores tamanha sua consciência ambiental. Seu pai não queria que o filho se tornasse artista com o argumento que “artistas morriam de fome”. Teimoso, Shimamoto seguiu desenhando à noite, após retornar do trabalho de office-boy e auxiliar desenhista da seção de promoção da matriz das Lojas Sears & Roebuck. Demitido, estreou nos quadrinhos na Editora Novo Mundo, de Miguel F. Penteado. Shimamoto ou simplesmente Shima é um dos grandes pilares dos quadrinhos nacionais com mais de 60 anos de carreira, coleciona prêmios nos quadrinhos e na publicidade. Trabalhou com todas as grandes editoras do país, é um dos precursores nos quadrinhos no gênero de Horror e também de Samurai. Lançou vários álbuns de quadrinhos e ilustrou livros, entre seus trabalhos em quadrinhos mais memoráveis estão: Capitão 7, Calafrio ,  Fêmea Feroz, Metal Pesado, Mestre do Kung Fu, Musashi, O Fantasma(Lee Falk), O Gaúcho, O primeiro Samurai, Pesadelo, Sombras, Spektro, Pesadelo, entre muitos outros.

Entrevista:

Shimamoto como e quando foi seu primeiro trabalho profissional com Histórias em Quadrinhos?

São Paulo. Em maio de 1957, após largar o meu emprego de auxiliar de desenho do setor de promoções das lojas da multinacional Sears & Roebuck, procurei a Novo Mundo, editora de revistas em quadrinhos do saudoso Miguel Falcone Penteado. Mostrei-lhe uma HQ baseada no livro “Conquista do Acre”, sobre o conflito Brasil-Bolívia. Ele foi muito gentil em receber-me, apesar de parecer muito atarefado. Imparcial, não poupou críticas. Foi severo com o trecho do roteiro em que eu tratava os bolivianos pejorativamente. Disse-me que naquele incidente a Bolívia era, de certa forma, vítima do “imperialismo” brasileiro. O “Tratado de Ayacucho”( firmado em 1867), reconhecia Acre como parte da Bolívia. Socialista, Miguel tinha sido líder sindical dos gráficos, e já estivera preso por incitação a greve. Em relação aos meus desenhos, apontou diversas falhas técnicas, sobretudo de anatomia. Generoso, não me fechou as portas. Apesar de considerar a minha HQ inaproveitável, afirmou que percebeu nela garra e muita determinação, e aconselhou-me a usá-las como “combustível” para seguir em frente. Deu-me duas semanas para eu retornar com novas amostras. Agarrei a oportunidade com grande entusiasmo e quando retornei, elogiou-me pela evolução. Decidiu encomendar-me quatro páginas sobre curiosidades brasileiras e mitologias clássicas para substituir a célebre série “Acredite se quiser” do americano Ripley´s. Tamanha responsabilidade apavorou-me. Pesquisei em enciclopédias da Ed. Vecchi que comprei baratinho em uma feirinha de rua. Inicialmente levei-as só esboçadas para o crivo de Miguel. Aprovou integralmente e pediu- me para arte-finalizá-las, e encomendou-me outras quatro páginas. No dia da entrega, Jayme Cortêz , diretor de arte da Ed. La Selva estava presente em visita ao amigo Miguel, e este mostrou-lhe os meus trabalhos. Após analisá-los detidamente, Cortêz pediu-me para visitá-lo na La Selva, que situava a poucas quadras dali. Retornei para a minha casa transbordando de alegria, levando no bolso a minha primeira remuneração conquistada com meus quadrinhos. 

Você se sente parte da história das Histórias em Quadrinhos no Brasil?

De certa forma sim, por estar envolvido com quadrinhos, direta e indiretamente,por sessenta e um anos. Quando visitei Penteado pela primeira vez tinha acabado de completar 18 anos. Em maio último fiz 79 anos.

Arte Final do personagem “Musashi”

Zantoichi por Júlio Shimamoto

Tenho um álbum seu publicado originalmente em 1958, uma história de Samurai, acredito que tenha sido a primeira publicação em Quadrinhos deste gênero no Brasil. Conte-nos como suas raízes japonesas  influenciaram no seu trabalho.

Tem razão, fui o pioneiro em desenhar HQ de samurais no Brasil. Os nossos ancestrais foram samurais, tanto do lado paterno ou do materno. Tenho em casa os emblemas nobiliárquicos daquele período. Na província de Osaka existe a cidade Shimamoto.

Página do seu personagem Musashi

Meus ancestrais foram vassalos do shogum Oda Nobunaga, que consolidou a unificação do Japão feudal no Período das Guerras Totais (Sengoku Jidai, Séc. XVI ). Os Oishi do meu lado materno, descendem do ramo paralelo da família de Oishi Kuranosuke, líder da “Rebelião dos 47 Samurais”, que já foi tema de dezenas de filmes, seriados, além de encenações do tradicional Teatro Kabuki. Vivi a infância e parte da adolescência ouvindo de papai e da minha avó a exaltação das heroicas proezas dos espadachins da era medieval japonesa. Já mamãe me proibia de me gabar da nossa linhagem, que estava em decadência faz quase dois séculos, e que eu não passava de simples filho de modestos imigrantes. Mas sendo quadrinista, como ignorar as fabulosas sagas heroicas profundamente gravadas no meu cérebro? Como desperdiçar filão tão rico?

Família Shimamoto nos anos 1940

Tanto você como os grandes nomes dos nossos Quadrinhos Nacionais: Flávio Colin, Jaime Cortez e muitos outros conquistaram o respeito que hoje temos da 9ª Arte. Qual foi seu maior desafio nessa trajetória no mundo dos Quadrinhos?

Para a minha geração foi muito difícil tirar sustento pleno dos quadrinhos. Jayme Cortêz, Colin, eu, e outros colegas éramos obrigados a expandir nossas atividades para o mercado publicitário e para as editoras de livros didáticos e literários. Maurício de Souza e Ziraldo foram exceção como únicos quadrinistas brasileiros bem sucedidos neste país. Outros como Fernando Dias da Silva, Rubens Moreira, André Le Blanc, e Gutemberg Monteiro, mudaram-se para os EUA para terem uma carreira vitoriosa. Como eles poderiam competir com o preço de banana dos quadrinhos importados que chegavam aqui depois de revendidos para o mundo inteiro? Outro fator complicador: o determinismo cultural. As temáticas das HQs estrangeiras como faroeste, super-heróis, detetives, heróis espaciais de ficções científicas, ou cômicas já estavam sedimentadas no inconsciente coletivo de nossos leitores faz muitas décadas. Para ser preciso, desde os tempos de nossos avós. O cinema também foi responsável por essa devastadora lavagem cerebral, desde sua invenção pelos irmãos Lumière, nos fins do séc.XIX. No início dos anos 60, participei de dois movimentos pela nacionalização dos quadrinhos( ADESP e a CETPA), ambas morreram na praia, melancolicamente. Nosso sonho era tentar abrir espaço para a nossa realidade, povoando as HQs com heróis nacionais baseadas em sagas de bandeirantes, Gaúchos, Cangaceiros, Zumbi dos Palmares, jagunços, Índios, etc… Eu próprio produzi e publiquei HQs com herói gaúcho “O Gaúcho” e com mulato capoeirista ” Meia-Lua”. Para a geração contemporânea houve uma grande melhorada. Um sem número de brasileiros de todos os cantos do país estão ganhando bom dinheiro em dólares produzindo HQs para as editoras dos EUA e da Europa, e sem precisar sair de casa graças ao computador e da internet. Mas ainda é raro alguém que consiga impor os seus próprios temas e personagens e a maioria não passa de mera mão de obra dos contratantes estrangeiros. 

Você sofreu algum tipo de repressão ou Censura, durante os “anos de chumbo” da Ditadura Militar?

Sofri, sofri boicote da parte de algumas editoras. Segui o exemplo de vários colegas do Rio e de Sampa transferindo-me para o mercado publicitário. Fui preso pela temida OBAN em 1970 (na ditadura do governo Médici) e mais tarde transferido para os porões da DOPS, apenas porque descobriram a minha participação numa lista de ajuda financeira a um refugiado político ( meu ex-patrão Carlos H. Knapp ) que passava por sérias dificuldades na Europa.

“O Discordante” por J. Shimamoto

Quais autores dos quadrinhos você destacaria?

São muitos, entre os falecidos: Fernando Dias da Silva, Antonio Euzébio, Le Branc, Scudellari, Lanzelotti, Cortêz, Miguel Penteado, Ivan Wasth Rodrigues, Nico Rosso, Manoel Victor, Zé Geraldo, Manoel Ferreira, Zezo, Sérgio de Lima, Paulo Hamasaki, Gedeone, Aylton Thomáz, Odilon, Flávio Colin, Mottini, Zalla, Edmundo, Colonese, Seto, etc… Entre os atuais: Mozart Couto, Luíz Saidenberg, Elmano, Getulio Delphin, Laudo Ferreira, Adauto Silva, Mutarelli, Watson, Walmir, Rodval Matias, Bené, Ofeliano, Paulo Fukue, Inácio Justo, Seabra, Gustavo Machado, Primaggio, Byrata, Deodato, Marcelo Campos, Quintanilha, Cariello, Roger Cruz, Vilela, Vetillo, E.C. Nickel, Alberto Pessoa, Bira Dantas, Will, Baraldi, Marcatti, Irmãos Bá, Allan Sieber, Guazelli, Emir Ribeiro, César Lobo, Beto Nicácio, Luciano Irrthum, Ronilson Freire, Allan Alex, Pedro Mauro, Alcimar Frazão, D´Salete, etc. Perdoem-me pela omissão aos talentosos quadrinistas da novíssima geração, cujos nomes e trabalhos ainda não me são familiares. 

Arte de J.Shimamoto

Ouvi dizer que você gosta de experimentar novas técnicas e novas maneiras de fazer arte. Fale nos dessa sua vertente?

Depois de algum tempo costumo enjoar-me do meu próprio estilo. Tem gente que se excita em praticar esportes radicais, correndo riscos. Como desenhista, também necessito me sentir desafiado, voltar a experimentar a mesma sensação de iniciante quando buscava superar os meus limites. Então, quando alcanço o domínio pleno de uma técnica, tento inventar outra. O meu último trabalho “Cidade de Sangue”, em parceria com o roteirista Márcio Jr., usei ferro de soldar e maçarico para desenhar sobre papel térmico de fax, dispensando lápis, pincel, e tinta.

O Cinema influenciou sua maneira de fazer História em Quadrinhos? Poderia nos dizer quais filmes ou Diretores?

Sim, o cinema do expressionismo alemão dos anos 20, de Murnau e Fritz Lang, e os filmes noir em preto e branco dos anos 40. Também assisti a filmes de samurais em preto e branco de Akira Kurosawa. Sou fascinado pela iluminação e enquadração cinematográfica . Meus trabalhos com cores, também se inspiram no cinema.

Shimamoto, foi mais que uma honra tê-lo em nosso site, pois desde jovem acompanho seu trabalho. Fico imensamente grato pode ceder esta entrevista a todos seus fãs pelo Brasil e fora.

Eu que lhe fico grato por esta oportunidade de poder me comunicar com fãs dos quadrinhos!

 

Waldir Bronson

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